A difĂ­cil arte de largar bem no MotoGP

“Um bom começo Ă© a metade do todo”

Viñales entra em pĂąnico; Lorenzo confunde os botĂ”es numa pista com pouca aderĂȘncia; o pulso de Airton Senna atingia 180 bpms. Cada piloto reage de uma forma diferente durante a largada. Vamos entender suas variĂĄveis…

Reparem que em cada pista de MotoGP hĂĄ na reta um pequeno setor com uma placa branca colocada ao lado do asfalto com a inscrição ‘Practice Start’. É o local para os pilotos ensaiarem um dos elementos-chave de um Grande PrĂȘmio e onde nĂŁo Ă© fĂĄcil ter muito tempo de treino.

Parece desajeitado — os pilotos entram em posição e disparam longe do local estacionĂĄrio com um gargarejo de som e notas de RPMs. É a antĂ­tese da velocidade e do fluxo das voltas que eles vinham fazendo anteriormente na pista, mas talvez seja o momento em que a motocicleta estĂĄ engajando a maioria de seus softwares e hardwares em efeitos intensos.

HĂĄ uma sutil mistura da tĂ©cnica do piloto com o desempenho intrincado da moto colidindo juntos. As motos sĂŁo capazes de sair de 0-100 em apenas alguns segundos. Comparado com o lançamento instintivo e temĂ­vel visto nos campeonatos de MXGP – onde as motocicletas de 450cc voam fora da grade graças ao controle de lançamento, indicadores de RPM e ‘pegadas’ na suspensĂŁo, mas que ainda possuem uma correlação ‘pura’ entre reação / embreagem / potencia –, no MotoGP  a relação Ă© um pouco mais complicada.

Comparativamente ao motocross, a largada do MotoGP Ă© realmente vital? Vamos ver o que Paul Vacathan, Chefe de Equipe Red Bull KTM de Pol Espargaro e alguns pilotos do MotoGP pensam sobre a largada. Enquanto um piloto de MotoGP pode praticar a largada seis vezes no mĂĄximo por semana, um praticante de MXGP pode treinar dez vezes esse nĂșmero em uma semana. Isso parece ser fator crucial para se fazer uma corrida decente…

Thomas LĂŒthi: Eu me lembro da minha primeira largada, na MalĂĄsia, a maior diferença foi colocar 100% de confiança na eletrĂŽnica, caso contrĂĄrio, vocĂȘ farĂĄ um backflip instantĂąneo. É meio assustador: vocĂȘ ativa o controle de lançamento e vai para aceleração mĂĄxima e entĂŁo joga com a embreagem. É uma moto poderosa! VocĂȘ precisa de todos os componentes eletrĂŽnicos para funcionar perfeitamente com o anti-wheelie (evita que a moto levante a frente) e controle de tração para um começo perfeito.

Cal Crutchlow, LCR Honda: Claro que tem que ser rĂĄpido na reação com as luzes e entĂŁo Ă© como vocĂȘ solta a embreagem e como vocĂȘ mantĂ©m a velocidade. Eu aprendi muito com isso, e fiz isso no ano passado muito melhor do que eu costumava fazer com a Yamaha. Com a Ducati eu era mediano, e com a Honda, no começo, tambĂ©m era ruim. Agora mudei as configuraçÔes da embreagem um pouco.

O lado técnico

Paul Trevathan, Chefe de Equipe de Pol EspargarĂł, Red Bull KTM: É um processo complicado. A primeira marcha Ă© uma engrenagem longa e alta, entĂŁo a embreagem tem que funcionar muito bem para que o piloto tenha uma boa sensação. NĂłs temos um limite de RPM, que Ă© um sistema de controle de lançamento, e estĂĄ relacionado com quanto torque Ă© entregue, assim como o controle de wheelie. Existem trĂȘs sistemas instalados para que o piloto possa acelerar e soltar a embreagem.  A moto deve cuidar do resto.

Franco Morbidelli, Petronas Yamaha: É muito complicado porque hĂĄ muita eletrĂŽnica acontecendo, entĂŁo Ă© difĂ­cil ajustar tudo e todos os detalhes. Às vezes vocĂȘ pode confundir algo ou ajustĂĄ-lo de forma errada e acaba parecendo muito ruim nos dados. O trabalho que fazemos Ă© adaptar a eletrĂŽnica Ă  roda dentada que temos na pista. Diferente pinhĂŁo e engrenagem naturalmente exigem um tipo diferente de aceleração e entrega de potĂȘncia em primeira marcha.

Bradley Smith: Largamos em primeira marcha. NĂŁo hĂĄ como começar em segunda porque nĂŁo seria capaz de fazer o pneu girar adequadamente. Uma motocross de 450cc pode começar em segunda ou terceira para tornar a largada um pouco mais longa. NĂłs temos a mesma filosofia, mas começamos com a potĂȘncia total em primeira marcha, e Ă© por isso que temos o controle de lançamento porque ele segura a moto em uma determinada RPM e vocĂȘ vai embora.

Luthi: É difĂ­cil conseguir o ponto certo com a embreagem
 mas isso Ă© tudo que vocĂȘ precisa focar, nĂŁo o acelerador, porque com ele vocĂȘ sĂł tem que definir o ponto certo das RPMs.

Trevathan: VocĂȘ encontra sua base da largada nos testes. O que a torna confusa Ă© quando o piloto perde a confiança. É como no motocross. Se vocĂȘ estĂĄ fazendo boas largadas, entĂŁo o piloto pode fazĂȘ-las com os olhos vendados, porque ele tem o ‘sentimento’ e nĂŁo se torna um estresse. Se vocĂȘ tem um cara que estĂĄ largando mal, entĂŁo temos um estresse a mais. Um piloto como Maverick [Viñales] Ă© um excelente exemplo: se vocĂȘ assistir o começo de sua prĂĄtica, elas sĂŁo horrĂ­veis e ele sempre sofre mais no inĂ­cio da corrida, porque ele perdeu a confiança e vocĂȘ pode ver isso. Ele estĂĄ fazendo coisas diferentes e os membros da sua equipe estĂŁo tentando definir isso para ele … mas vocĂȘ realmente precisa ter um bom plano.

O aspecto humano e o ‘estilo’

Jack Miller, Pramac Racing: Todo mundo Ă© diferente e todos nĂłs estamos tentando melhorar. NĂłs avaliamos as largadas quando voltamos [para os boxes] e estĂĄ dentro de milĂ©simos de segundo. VocĂȘ pode ver que o seu salto inicial nĂŁo foi bom, mas teve uma boa aceleração, entĂŁo vocĂȘ trabalha nisso. VocĂȘ tambĂ©m trabalha no mapeamento. Por exemplo, no Texas, onde vocĂȘ tem a colina, vocĂȘ pode quase empinar na subida e usar um pouco mais de energia em comparação a alguns lugares como Sachsenring, onde a caixa de cĂąmbio Ă© pequena e vocĂȘ precisa de muito menos energia. VocĂȘ trabalha com o mapa e tambĂ©m com a sensação de embreagem e nĂłs jogamos com novos “pratos” e “pratos” antigos para obter uma sensação agradĂĄvel.

Trevathan: Se vocĂȘ tem uma moto com uma boa embreagem, entĂŁo Ă© mais fĂĄcil. Nossa moto em particular Ă© boa nisto e os pilotos podem controlar a embreagem ou sĂł soltĂĄ-la, dependendo da situação. EstĂĄ sempre relacionado Ă  embreagem e o trem de acionamento. Poucos pilotos podem simplesmente largar a embreagem; a maioria sempre tem que fazer alguma outra coisa. HĂĄ alguns que apenas vĂŁo no ‘bang’ e esse Ă© o melhor modo de largar, mas vocĂȘ realmente precisa do sistema para trabalhar eletronicamente com a embreagem certa e com os materiais que escorregam e agarram. Claro que tambĂ©m estĂĄ relacionado Ă  temperatura.

Luthi : Quando vocĂȘ se acostuma, parece normal e eu diria que Ă© mais fĂĄcil largar numa moto de MotoGP do que de Moto2. VocĂȘ precisa de um sentimento melhor com a Moto2, enquanto que no MotoGP vocĂȘ continua cheio com o acelerador. Claro, vocĂȘ precisa controlar o wheelie, mas a eletrĂŽnica ajuda muito. É difĂ­cil dar um grande passo em frente na moto GP, mas cada pequeno passo dĂĄ uma nova motivação. É aquela coisa chamada “oscilação”…

Trevathan: VocĂȘ pode perder quatro ou cinco segundos na primeira volta e neste esporte – vocĂȘ nĂŁo terĂĄ isso de volta.

A valor da prĂĄtica

Crutchlow: Sua prĂĄtica começa no final de semana, no fim de cada sessĂŁo, quando vocĂȘ tem pouco combustĂ­vel. No inĂ­cio da corrida vocĂȘ tem um tanque cheio e a moto nĂŁo se move da mesma maneira. VocĂȘ tem que ter cuidado e isso deve ser levado em consideração.

Trevathan: Se vocĂȘ se classificou entre os dez primeiros, terĂĄ que manter apenas o seu lugar nas primeiras curvas, porque esses caras sabem que algo estĂșpido normalmente nĂŁo vai acontecer. Eles vĂŁo entrar em um ritmo e vocĂȘ serĂĄ arrastado com eles. Mas se vocĂȘ estĂĄ num par de linhas bem atrĂĄs, o “desespero” Ă© maior para alguns caras, entĂŁo vocĂȘ sabe que haverĂĄ alguns movimentos “estranhos” nas primeiras curvas. É aĂ­ que fica confuso e as grandes lacunas aparecem. Se vocĂȘ Ă© o 15, entĂŁo irĂĄ querer “pular para a luz”, porque estarĂĄ correndo com uma classe diferente de piloto.

Morbidelli: Eu tento praticar muito, pelo menos duas vezes por sessão. É algo que eu comecei a trabalhar em algumas corridas passadas, porque vejo os caras top se concentrarem muito nisso.

Crutchlow: Eu não faço muitos treinos
 porque se for mal eu fico pensando nisso para a corrida. Eu acho que só posso fazer dois.

Miller: Tudo depende de vocĂȘ. Eu sempre ganho um pouco de wheelie na largada porque eu solto e puxo de volta a embreagem, enquanto pego caras como o [Jorge] Lorenzo, que sĂŁo tĂŁo suaves com isso. Quando as pessoas aprendem, Ă© perfeito, entĂŁo tornam-se imbatĂ­veis na largada.

Trevathan: NĂŁo esqueça fatores como o barulho e a adrenalina. Alguns sujeitos gostam de ir no limite e entĂŁo recuar um pouco e achar a RPM deles, mas quando hĂĄ 20 outras motos ao redor vocĂȘ perde esse sentimento. AlĂ©m disso, se vocĂȘ tiver um pouco de wheelie, vocĂȘ toca a embreagem de forma um pouco diferente do que fez em todo o final de semana, e de repente a moto nĂŁo estĂĄ preparada para isso e o piloto entra em pĂąnico e perde o equilĂ­brio. O sistema estĂĄ trabalhando contra vocĂȘ. Esse Ă© o problema com a eletrĂŽnica: se tudo funciona da maneira certa, entĂŁo Ă© super, mas quando as coisas começam a funcionar uma contra a outra, isso se torna uma bagunça.

Crutchlow: Se vocĂȘ nĂŁo fizer um bom começo e os primeiros cinco caras fugirem, vocĂȘ nĂŁo vai conseguir alcança-los. Eu nĂŁo acho que a largada Ă© um ganho marginal. Acredito que Ă© uma das partes mais importantes da corrida agora. Alguns pilotos acham que vocĂȘ pode treinar essas reaçÔes, mas eu nĂŁo tenho certeza…

Morbidelli: Claro que vocĂȘ ainda pode ter uma boa corrida [se vocĂȘ nĂŁo começar bem], mas se vocĂȘ tiver um bom começo, entĂŁo uma grande parte do trabalho foi feito. Se vocĂȘ estĂĄ com dificuldades e consegue um bom começo … Ă© uma vantagem que vocĂȘ tem que aproveitar, se puder. Acho que chegamos a um nĂ­vel em que vocĂȘ tem que ser bom em tudo. VocĂȘ nĂŁo pode começar mal e ter boas corridas. No MotoGP o nĂ­vel Ă© mais alto e o começo Ă© algo que todos fazem bem.

Trevathan: VocĂȘ jĂĄ viu algumas vezes no passado quando o controle de tração foi desligado … honestamente, Ă© tĂŁo difĂ­cil entender o quanto essas coisas aceleram. Lembro-me de estar aqui no MotoGP pela primeira vez e de estar na Ășltima curva em Sepang, pouco antes de seguirem em frente. As motos saĂ­ram da curva em baixa rotação e era como se alguĂ©m tivesse atirado elas com um canhĂŁo. VocĂȘ nĂŁo vĂȘ isso na TV e nĂŁo entende a força e o poder que acontece. Seria interessante ter um medidor de força nos braços para ver como um piloto permanece em posição para o inĂ­cio, mesmo que vocĂȘ esteja limitando as RPMs Ă  condiçÔes que a moto e o pneu possam suportar, sem empinar, Ă© difĂ­cil descrever. VocĂȘ estĂĄ falando 0-100 em 2,5-2,7 segundos e 0-180 em 4 segundos: Ă© uma moto muito rĂĄpida com um pequeno patch de contato.