Álvaro Bautista ou a Ducati, quem está fazendo a diferença no WSBK?

“A desesperada curiosidade que está em nós faz que percamos nosso tempo com as coisas futuras, como se não nos bastasse digerir as coisas presente.”

Bautista deixa Aragon com nove perfeitos recordes e também com uma margem de vitória bastante confortável em cada corrida. Não há dúvida que a Ducati está revolucionando o Superbike ao levantar dramaticamente a barra. Já li que o título está decidido pela qualidade da moto, mas também que tudo mudará quando voltarmos à Europa, e a Dorna aplicar as regras de limite de revs. para limitar o desempenho da máquina vermelha.

A Ducati V4 parece um foguete nas pistas, mas do outro lado não há máquina de corrida mais rápida do que a opinião “dos críticos de sofá”. Como eles sabem quando é o piloto que está fazendo a diferença e quando é a moto? Espanta-me sempre quantas pessoas professam ser capazes de reconhecer esta sutil nuance do motociclismo de elite, baseado apenas em quão rápido todo o pacote vai em linha reta.

Para tornar as coisas mais confusa, Jonathan Rea – quatro vezes campeão do SBK – declarou hoje ao site GPOne.com/it:“Infelizmente não há nada a fazer contra a Ducati V4 na reta, pois tem mais potência do que nós”.

Lembro-me que na primeira rodada do Campeonato do Mundo de MotoGP de 2007 no Catar, Casey Stoner surpreendeu o mundo com a sua estreia na Ducati, conduzindo a famosa Desmosedici em cerca de 80% do circuito o suficiente para ficar na traseira da Yamaha de Valentino Rossi, usando a vantagem de velocidade máxima de 12km / h de sua moto sobre a M1 apenas na reta – praticamente o único lugar em toda a pista onde ele poderia ousar arriscar uma ultrapassagem.

‘O poder da Ducati!’ gritaram os comentaristas. ‘Não é justo!’ exclamou a base de fãs partidária de Rossi. Nenhum deles poderia imaginar como este novato Australiano e mal-humorado poderia ser capaz de usurpar o “Maior de Todos os Tempos” sob o sol do deserto, se não fosse por sua clara superioridade em linha reta. Na minha memória, pelo menos, ninguém havia sequer mencionado o potencial superior da Ducati durante a pré-temporada, treinos livres ou qualificação, até o final da primeira volta, quando a M1 de Rossi foi jogada na areia.

A superioridade da Yamaha em comparação à Ducati em Losail – presumivelmente – era a sua suave passagem através das seções rápidas e fluidas da pista. Mas como a grande maioria de nós geralmente não está qualificada para ver tais sutilezas na forma como uma moto de MotoGP se comporta, através dos nossos televisores, tendemos a confundir o que está acontecendo. Como tal, na época, Stoner não recebeu os devidos créditos.

Sabemos agora, naturalmente, que nas mãos de qualquer outro piloto uma quantidade infinita de potência não teria sido suficiente para compensar as deficiências de toda uma geração da Desmosedicis (aliás Alex Barros, Loris Capirossi e Alex Hofmann – todos na mesma moto – postaram velocidades mais altas que Stoner durante a corrida do Catar em 2007).

O australiano, como mais tarde ficou claro, era de fato um gênio. Com o tempo, com o benefício da visão retrospectiva, até as suas performances erráticas na LCR Honda em 2006 tornaram-se geralmente e legitimamente consideradas flashes de brilho numa primeira temporada brutal na mesa de topo do MotoGP, onde Valentino sempre conseguiu o primeiro jantar.

Eventualmente, até mesmo o mais ferrenho crítico de Stoner seria forçado a admitir que a única vantagem que a Desmosedici realmente tinha sobre outras motos era a o talento de quem a conduzia.

A razão pela qual eu levanto isso, como você deve ter adivinhado, é que o início do Campeonato Mundial de Superbike de 2019 tem ecos dos primeiros dias da Stoner-Ducati das 800cc há mais de uma década. Mais uma vez, a Ducati criou uma moto novinha em folha com um belo ronco, e, novamente, tem um piloto capaz de aproveita-la ao máximo. No entanto, mais uma vez, parece ser a moto que está levando a maior parte do crédito.

Os caprichosos das “regras de equilíbrio” do WSBK logo poderão ver Álvaro Bautista ser “castrado” por seu total domínio do campeonato até o momento, na inegável e irresistível Ducati V4 Panigale. E, de uma perspectiva neutra, com interesse em corridas o mais parelha possível, você não vai me ouvir reclamar sobre isso.

Há razões atenuantes pelas quais as outras Ducatis não foram tão competitivas ainda: os ferimentos de Chaz Davies na pré-temporada; a falta de experiência de Michael Ruben Rinaldi; e as primeiras dificuldades de Eugene Laverty com as limitações óbvias de uma equipe “de cliente”. Quando essas questões forem resolvidas, talvez possamos ver outras V4s fugindo com Bautista na frente.

Mas até que isso aconteça, é impossível sugerir que o espanhol tem uma vantagem injusta debaixo dele.

Até agora tudo o que você pode dizer com certeza é que Bautista demonstrou sua qualidade, experiência e incrível condicionamento físico para ajudar a fazer a diferença sobre um rival altamente competitivo como Jonathan Rea e a Kawasaki. A maneira como ele se adaptou à Paniganale e aos novos pneus Panigale é outro retrocesso à afinidade imediata de Stoner com a Desmosedici e os Bridgestones.

Se Bautista poderá manter isso por uma temporada inteira é um outro assunto. Com uma moto nova, sempre haverá novos desenvolvimentos, alguns dos quais não funcionarão, e ainda precisamos ver como o pacote inteiro se adapta a novos circuitos e a uma série de condições. Também precisamos ver ainda a resposta da Kawasaki e de Rea.

Bautista também tem perguntas para responder. Quando as coisas não caminharem do seu jeito, ele ainda será rápido o suficiente para ficar em segundo lugar? Será que alguma quantidade de velocidade máxima o ajudará quando ele não puder encontrar um cenário em uma fria e úmida manhã de sábado?

Por enquanto, a olho nu, pode parecer que o World Superbikes e, em particular, Jonathan Rea tem um problema imediato com a velocidade máxima da Ducati. Mas, como sempre, em corridas desse nível, a realidade é muito mais sutil do que parece.