As lutas de Valentino Rossi. Ainda doutor?

“Faze aquilo para que és feito.”

Raramente um esportista carregou o seu esporte como Rossi fez com a MotoGP. “Quando esse homem for embora, aqui ficará um deserto”, diz um membro da Yamaha. O perfil de estrela de Rossi não está aqui em discussão nem o seu talento. A única questão que permanece é se ele será considerado o maior piloto de MotoGP de todos os tempos.

“É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória ao acaso ou ao engenho”. Rossi é notável porque é um corredor completo. Sua inteligência está ligada no 220 V, permitindo que ele use seu talento natural com efeito devastador. Valentino também tem coragem em abundância, um requisito importante nesse mundo de duas rodas. Contudo, ao longo dos anos ele fez algumas ultrapassagens “maníacas” e inimigos. “MotoGP é um esporte de pensamento, talento e potência. Então, se você pode induzir os rivais a cometer erros, você cria uma vantagem”, justifica ele.

Seu segredo não parece ser apenas a velocidade, e sim o seu gosto em deixar os oponentes atordoados e confuso; o deleite juvenil em esmagar os rivais como formigas. Valentino poderia recorrer a George Orwell – autor de “1984” e “Fazenda Animal” – que escreveu: “Esportes sérios não tem nada a ver com as regras estabelecidas (fair-play). Ele está ligado ao ódio, ciúme, vaidade, desrespeito às regras e prazer sádico. É a guerra sem os tiros”. Em outras palavras: “Não somos iguais”; “Não compartilhamos o mesmo talento”.

Valentino é também conhecido como o “Midas” dos jogos mentais, ao espalhar confusão e desinformação aonde quer que vá. Quando corre, ninguém sabe o que vai fazer: mudar as linhas? Ajustar o ritmo? Mudar seus pontos de frenagens? Realizar uma ultrapassagem falsa para ver a reação do oponente ou mudar o traçado sugerindo ao rival que a sua moto não está tão veloz? “Ele é um trapaceiro astuto – ninguém sabe qual será o seu próximo passo.”

Rossi é um piloto perigoso?

“Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda”, diz Robert De Niro em “O Poderoso Chefão”. È uma maneira inteligente de agir, e independe se você está na máfia ou na MotoGP. É como Valentino gosta de operar. Claro, o nove vezes campeão do mundo quase sempre teve um inimigo número um – Max Biaggi, Sete Gibernau, Jorge Lorenzo – e agora Marc Márquez. Nas corridas todos os seus rivais são inimigos, e Rossi sempre trabalhou para manter os inimigos por perto.

Stoner foi o primeiro a levá-lo até as cordas, deixando-o atordoado e confuso, questionando a si mesmo se tinha talento para suportar o próximo ataque. Rossi teve que cavar fundo para buscar forças para derrotar o talentoso Stoner. Como sempre os pneus: quando a Michelin oferecia a melhor aderência, Rossi vencia, e quando a Bridgestones vinha com a melhor borracha, Stoner vencia. Na época da disputa entre os dois Rossi comentou – “Se a sua moto andar 10km/h a menos do que os outros, você ainda pode ganhar, mas se você tem os piores pneus, então você estará f**”.

Stoner domou a Desmosedici (2007-2010) ao usar sua habilidade de motocross, girando a difícil ducati com uma combinação de freio traseiro e acelerador; única maneira de passar pelo meio da curva. Stoner girava a traseira, soltava o acelerador, para que o pneu traseiro tivesse grip, levantando a moto até o ponto ideal do pneu, e abria o gás. Em outras palavras, ele usava a técnica “highside” para levantar a moto rapidamente na curva. Os oponentes comentavam: “É impossível pilotá-la como Casey”. Era uma maneira arriscada de fazer, mas lhe rendeu um título pela ducati em 2007, e um elogio de Rossi – “Pilotou a ducati como um deus”.

Mas o feitiço de amizade entre Rossi e Casey Stoner acabou em Laguna Seca, em 2008 (figura acima), quando Rossi desencadeou um vicioso ataque que virou a maré do campeonato daquele ano. Valentino foi além de sua marca ao bater Stoner em julho em Laguna Seca? A vitória – a maior de todas indiscutivelmente – prova que ele é o mestre estrategista e duelista? Rossi se queixou: “Aquela corrida não foi uma corrida, foi uma batalha”. “Às vezes acontece, você pára com o traçado correto e vai à luta. Algo como trocar um chip no seu cérebro por outro”. Naqueles dias era mais batalha que corrida, e as disputas foram inesquecíveis”, ele diz.

Rossi sabia que a única chance de bater Stoner em Laguna era atacar em cada curva, nunca deixar ele fugir mais que alguns metros à frente, caso contrário Stoner exploraria a vantagem do motor da Ducati e Rossi seria deixado para “morrer”. Rossi também sabia que havia uma chance de assustar e desestabilizar Stoner com as suas investidas, forçando-o ao erro. Não eram táticas de um homem desesperado, mas sim de um mestre. Nesse episódio Rossi usou a tática do freio. É um truque simples: o piloto freia mais que o habitual, obstruindo a frente do piloto rival para que este não consiga fazer a curva no traçado ideal. O rival para não bater, tem que desviar-se do piloto da frente, saindo da pista. Foi o que aconteceu com Stoner.

A perda do respeito de Stoner em 2011 foi a gota d’água de um ano prévio conturbado, quando Rossi acusou Casey de ter “afrouxado” na ducati, após assinar com a Honda em julho/2010. Em 2011, o australiano acusou Rossi anos de direção perigosa, após sofrer queda em uma corrida, soltando a pérola: “Sua ambição foi maior que o seu talento”. Nesse episódio, talvez, Valentino queimou o cérebro de Stoner, facilitando o seu retorno mais tarde para a casa de sua mãe, com diarreia (intolerância a lactose). Mas Rossi foi na verdade um vilão nesse episódio? Todo mundo tem o seu lado “sombrio”, e o próprio Valentino confirmou a existência desse seu lado ao desenhar uma lua no capacete. Colin Edward uma vez o chamou de “viciado” e Troy Bayliss de maníaco. Contudo, é de conhecimento de todos que quando se trata de curvas Rossi se transforma em um lutador peso-pesado.

Lorenzo foi outra vítima de Rossi, após receber uma cotovelada durante uma ultrapassagem no circuito de Motegi, em 2011. O piloto maiorquino comentou na época: “Talvez no futuro seus rivais fiquem bravos e passem a agir como ele”. Stoner foi mais cético: “O que aconteceu entre mim e o Valentino em Laguna em 2008 não irá acontecer novamente, ou se acontecer, Valentino receberá em dobro dez vezes mais. Ironia do destino, em 2018, Valentino acusou Marc Márquez também de direção perigosa, após o grande prêmio da Argentina.

Marco Simoncelli foi o melhor amigo de Rossi na MotoGP, mas até mesmo suas amizades têm limites. “Sou muito amigo de Marco”, disse Rossi. “Saímos por aí juntos, treinamos motocross juntos. Eu gosto dele; ele é um bom amigo. Mas p****, eu não digo onde eu acho que ele está cometendo erros, porque, no futuro, talvez eu tenha altercação com ele também.”

Enfim, o que Valentino está fazendo agora é mais impressionante do que fez na última década. Naquela época ele era jovem e cheio de vigor; agora ele está na meia-idade, rico e nada mais a provar. Está correndo no limite, amando o que está fazendo e provando a todos nós que estamos errados. Seu entusiasmo para correr e pelas corridas não esmaeceram. Talvez ele tenha ainda alguns bons anos de MotoGP, mas sabe que um dia sua hora chegará. Ele compara os jovens rivais atuais com Jorge Lorenzo e Casey Stoner: “Eles olham para mim com sangue nos olhos e pensam – agora é a hora. Se eu não sou forte, eles irão me devorar numa única mordida”.

Rossi reduziu suas expectativas para a temporada 2019, após passar dois anos lutando contra o desgaste de pneus da Yamaha M1, e ele não sabe o quão rápido será. “Quero descobrir se ainda sou um piloto rápido, porque após essas duas temporadas, não sei, ninguém sabe. Não posso falar sobre ganhar o campeonato porque primeiro tenho que saber se posso lutar pela primeira fila e pódios.” Rossi, como todos os grandes corredores, saberá transformar o negativo em positivo. A MotoGP (Dorna) certamente precisa ter Rossi em uma moto competitiva. Os espectadores precisam de batalhas, e este tipo de luta sempre vale a pena assistir.