Gigi Dall’Igna: Eu não me intimido com os meus oponentes. Meu defletor é legal

Ele veio da Aprilia, onde começou sua carreira como engenheiro em 1992. Depois tornou-se responsável pelas corridas em 1999; fez um pequeno exílio na Derbi em 2004; retornou a Noale em 2005 como diretor técnico da Piaggio; e de 2010 a 2012 foi diretor de esportes da Aprilia Racing. Quando Gigi Dal´Igna foi para a Ducati em 2103 suas motos Aprilias foram campeãs na 125cc, 250cc e no Superbike.

Embora ninguém conteste sua qualidade como administrador, ele sempre se destacou por sua intuição. Quando chegou à Ducati, ele simplesmente colocou cada engenheiro da fábrica no lugar certo, onde rendia o seu máximo. Em 2016 criou quatro áreas independentes de trabalho: Motor, Chassis, Eletrônica e uma que nenhuma outra fábrica de motocicletas tinha em mente: aerodinâmica, na qual cerca de vinte engenheiros fazem parte, conforme Massimo Rivola, que é agora responsável pela Aprilia, aponta. Eles trabalham de forma independente e toda terça-feira depois de um Grande Prêmio Dal´Igna se reúne em Bolonha com os quatro departamentos.

Gigi é muito bom e lutou com os japoneses com a sua aerodinâmica, campo em que não estavam preparados. Foi sua a invenção das asas aerodinâmicas e a Honda ameaçou deixar o MotoGP caso não fossem abolidas. Agora ele enfrenta um novo protesto devido ao defletor no braço oscilante da Ducati, usado pela primeira vez na prova de Losail, no Catar.

Após o grande prêmio todos falaram, exceto ele, o gênio criativo. Em entrevista ao GPOne.com, DalÍgna comentou a ação impetrada pelas quatro equipes de fábrica do MotoGP, exceto a Yamaha, e deixou claro desde o início que a Ducati não agiu contra o espírito do regulamento. A função do dispositivo na roda traseira tem como objetivo esfriar o pneu. Como exemplo, ele citou a fumaça que saia do pneu da Suzuki de Rins nas curvas do Circuito de Losail, uma pista que costumeiramente exige muito dos pneus, independentemente da temperatura.

Gigi diz que usou o defletor traseiro após aprovação do Diretor Técnico da Fim, que é o único que pode julgar se uma peça é regular ou não. Não faz sentido para ele não usar o dispositivo porque seus rivais na competição não querem que ele o use. Por outro lado, reconhece que as regras não foram detalhadas o suficiente, uma escolha da organização que não compartilhou, e que dá margens a dúvidas.

As três asas do defletor – questionada por Massimo Rivola –, têm como função aumentar a velocidade de ar naquela área, mais precisamente porque o coeficiente de transferência de calor depende da velocidade do ar, e, portanto, tem como objetivo esfriar pneu traseiro o máximo possível. As diretrizes emitidas pela DT dizem que é permitido usar um “spoiler”, algo preso ao braço oscilante, cujo objetivo seja esfriar o pneu, ou para evitar que água ou detritos passem pelo pneu.

O proposito do dispositivo não é gerar carga aerodinâmica. A moto irá melhorar seu desempenho não pela criação do “dowforce” na roda traseira, e sim pelo esfriamento do pneu traseiro, explica Gigi. Quanto a necessidade de submeter a Ducati à prova no túnel de vento para analisar a ação aerodinâmica do defletor, Gigi acha desnecessário. Os testes de pistas são mais simples, e, rapidamente, é possível verificar uma queda na temperatura do pneu com o defletor, sem que exista a ação do “dowforce”.

Sobre a hipótese de o dispositivo ajudar na frenagem da roda traseira, Gigi diz desconhecer o mecanismo. E se existir, não foi intencional. Ele levantou um ponto importante durante a entrevista: “Por que a Yamaha não foi questionada em 2018 quando trouxe o defletor?”. Gigi baseou seu “spoiler” no da marca de Iwata, e só o incorporou na fase pré-temporada após autorização do departamento técnico da Dorna — Danny Aldridge.

O engenheiro chefe da Ducati espera a decisão técnica do Tribunal de forma serena, já que acredita não ter feito nada de errado. Quanto ao desenvolvimento contínuo na aerodinâmica levando a aumento nos custos, alegado por Davide Brivio, “manager” da Suzuki ao GPOne.com, Gigi foi enfático: “A Honda nos testes do ano passado levou, segundo Marc Márquez, quatro motos diferentes para descobrir a ideal. Isso é um custo real. Quando alguém tem uma ideia melhor que a minha, eu simplesmente digo a ele que é boa, e tento entender o que posso fazer para ser melhor do que ele”. Em outras palavras, a alegação de custo elevada é a outra face da falta de criatividade.

“Agora, toda vez que a Ducati faz algo novo, todos estão prontos para levantar o dedo e pedir uma mudança de regulamentação. Quando a Yamaha fez o mesmo dispositivo que o nosso ninguém moveu um dedo. Isso é muito estranho para mim.” Na Argentina, Gigi promete usar os mesmos dispositivos utilizados no Catar, pois acredita que está no caminho certo.

Em suma, não sabemos até que ponto as declarações de Gigi Dal`Igna revelam toda a verdade, assim como não sabemos se os dados do pneu mais frio fornecido pela Ducati tornará o dispositivo legal ou se o efeito aerodinâmico do defletor o tornará ilegal para o Tribunal. Uma opção seria manter os pontos de Andrea Dovizioso, e tirar os pontos de construtores da Ducati caso os juízes considerem que o dispositivo é ilegal.

Com as disputas cada vez mais acirradas, e CEOs vindo da Formula 1 com seus vícios na mala, podemos esperar um MotoGP cada vez mais político, infelizmente. Obviamente, existem regulamentos que devem ser respeitados. Os engenheiros devem ter certas regras e a organização do campeonato deve ser vigilante, como em qualquer esporte.

Para Carlos Pernat, que sempre tem razão, seria melhor que as equipes de fábrica reclamantes continuassem a trabalhar em vez de se envolverem em ações marcantes que fazem as pessoas falarem de si mesmas e não sobre esporte, sobre o que acontece na pista.

O motociclismo deve ser cheio de duelos na última volta e os Blogs deveriam falar sobre isso, e não de ações em tribunais ou regulamentos. Pernat não acredita que a Ducati tenha mais moto que a Honda ou a Suzuki. Para ele o que ocorre é mais um ataque politico a criatividade de Gigi Dal´Igna. Ideias devem ser combatidas, como disse Gigi na entrevista, com ideias melhores. Esta é a essência do esporte.