Esforçar-se para ser segundo leva a lugar nenhum.

“o seu parceiro de equipe é também o primeiro dos seus rivais”

Durante a apresentação da Repsol Honda Team em Madrid, falou-se muito sobre “Dream Team”, ambos em referĂŞncia ao par que pilotou as 500cc do final dos anos 90 – Mick Doohan e Alex CrivillĂ© –, e aos dois homens que vĂŁo correr na MotoGP em 2019. Marc Márquez, todavia, nĂŁo se sentiu confortável com a classificação. “Para aceitar esse rĂłtulo teremos que esperar atĂ© o final da temporada, porque a Ăşnica coisa que importa na pista Ă© o resultado. Ainda jovem Marc aprendeu que Ă© fácil cair na armadilha de prometer antes mesmo de a jornada começar. Estar em um time como a Honda e aceitar o rĂłtulo de “Dream Team” significa que ambos terĂŁo a obrigação de ganhar o campeonato. Qualquer resultado diferente da conquista do tĂ­tulo será visto como um fracasso.

Está aberta a discussĂŁo se o adjetivo Ă© merecido. Acredito que Ă© cedo para dizer se a dupla atual será tĂŁo dominante quanto a equipe do final dos anos 90. Márquez tem se mostrado um adversário difĂ­cil de ser batido, mas está se recuperando de uma grande cirurgia realizada em dezembro de 2018.“Infelizmente o ombro estava pior do que esperávamos, e isso tornou a operação mais complicada. O mesmo vale para a recuperação fĂ­sica. Devo dizer que este foi o inverno mais chato de todos aqueles que vivi atĂ© hoje.” Marc sabe que terá que suportar com resignação os incĂ´modos para os os quais nĂŁo temos remĂ©dios. “NĂŁo basta fortalecer a mente, Ă© preciso tambĂ©m desenvolver-lhe os mĂşsculos.”

Não há dúvidas, no entanto, que a maioria dos holofotes estará sobre Jorge Lorenzo.“Eu confio na minha capacidade e vou trabalhar duro para alcançar os resultados.” Muitos estão curiosos para ver o que vai acontecer já no Qatar. A nova Honda é competitiva, mas precisa ser melhorada nas saídas de curvas. Quando Lorenzo a testou em Jerez, na pós-temporada, ele gostou da moto desde o primeiro dia. Agilidade nas curvas, velocidade, e a qualidade da equipe Honda deixaram-no impressionado. “É claro, a moto não é perfeita; conversamos sobre os detalhes nos testes; percebi a qualidade, a precisão, o nível diferente, superior. O sonho de todo piloto é estar aqui.”

Lorenzo terá agora outra moto para se adaptar, e todos esperam que ele ande na frente. “De certo modo, isso me lembra a situação do meu primeiro ano na MotoGP com o Valentino. Ele estava no topo de sua carreira e conhecia muito bem a Yamaha; o mesmo pode ser dito de Marc. Ele tem uma vantagem em relação a mim, Ă© um fenĂ´meno e estou ciente de que vou aprender muito com ele. Eu sei que devo ser humilde.” Dizia SĂłcrates: “Há entĂŁo covardia em vencer o inimigo cedendo-lhe terreno?” Lorenzo sabe que ter alguĂ©m forte em sua garagem Ă© um benefĂ­cio para si mesmo e para a equipe, porque poderá obter informações e acelerar sua adaptação Ă  moto.

Em contraste, ele não acredita que exista o risco de um novo muro como aconteceu entre ele e Valentino: “Eu não acho que Puig permitiria isso.” O Diretor da Honda, por outro lado, não espera que ambos os pilotos se comportem como se fossem primos de primeiro grau. “A Equipe Honda sempre teve dois pilotos competitivos porque seu objetivo é vencer”, ele declara. Eles vão lutar para alcançar os seus objetivos, e é isso que pedimos a eles.” Tetsuhiro Kuwata – diretor da HRC – vai um pouco além: “É verdade, vamos ter que administrá-los, mas não tenho dúvidas de que teremos sucesso. O que nos espera será difícil, mas nos fortalecerá.”

Gerenciar um “Dream Team” não é tão fácil quanto se pode esperar. Ter dois pilotos de ponta disputando o mesmo campeonato leva inevitavelmente a um choque de egos. “Não se engane caro leitor desse blog, o seu piloto favorito também é movido pelo ego.” Ou, como disse Mick Doohan – “Esforçar-se por um segundo lugar leva a lugar nenhum”. Muitos esperam ver disputas acirradas entre Lorenzo e Márquez. “Neste momento é mais fácil ele me bater, do que o contrário”, sublima o maiorquino. Não é impossível, no entanto, que Márquez e Lorenzo repitam as façanhas dos pilotos das 500cc.

“Enquanto Ăşmida, a argila Ă© mole; apressemo-nos, e que a roda ágil em girando a modele.” Mesmo com um começo lento, há pouca dĂşvida que ambos os pilotos estarĂŁo lutando pelo campeonato. Suas ambições os incentivarĂŁo a pilotar de uma maneira que a moto fique a melhor possĂ­vel da temporada. Nessa linha, os sinais foram positivos em ValĂŞncia e Jerez. Enfim, Ă© mais fácil ser acreditado quando se fala de coisas da natureza divina do que de coisas de natureza humana. Resta saber como Márquez e Lorenzo vĂŁo lidar com a pressĂŁo de competir usando as mesmas cores, e como o destino irá favorecĂŞ-los.