Jorge Lorenzo e a Honda: eles vencer√£o?

A forma como Jorge Lorenzo pilotou a Repsol Honda na pós-temporada 2018 surpreendeu a nós todos, deixando-nos com cara de bobos, e ele com um sorriso de satisfação no rosto. Quais são os precedentes de como a união com a Honda funcionará?

Lorenzo foi muito r√°pido no teste, terminando em quarto, apenas 0,135s mais lento do que seu companheiro de equipe. A HRC j√° est√° trabalhando intensamente para deix√°-lo 100% confort√°vel. Lorenzo usa uma t√©cnica refinada, ent√£o ele precisa que tudo esteja nos lugares certos, conforme j√° mostrou na √ļltima temporada. Em Jerez, ele j√° usou um tanque de combust√≠vel modificado para pilotar a moto mais confortavelmente e ter um maior grip.

A combina√ß√£o de Lorenzo e Marc M√°rquez na Repsol Honda cria uma das equipes mais fortes da hist√≥ria dos Grandes Pr√™mios, somando 12 t√≠tulos da MotoGP. Os c√©ticos j√° est√£o a dizer que ‚Äúum reino n√£o comporta dois reis‚ÄĚ. Contudo, a associa√ß√£o de dois grandes talentos j√° aconteceu no passado com Wayne Gardner e Mick Doohan na Rothmans Honda na d√©cada de 1980, Lawson e Wayne Rainey na Team Roberts Marlboro Yamaha na d√©cada de 1990, Lorenzo e Valentino Rossi na Yamaha na d√©cada de 2000. E tamb√©m com Ayrton Senna e Alain Prost juntos na McLaren Honda em 1988 e 1989.

Basta uma simples olhada no instragram dos pilotos da MotoGP para constatarmos que todos est√£o motivados a ganhar alguma coisa, pelo ritmo de treinamento intenso a que s√£o submetidos em cada in√≠cio de nova temporada. √Č claro que alguns est√£o desejosos de alcan√ßar coisas que ningu√©m mais conseguiu. Lorenzo fez o que Rossi j√° tinha feito, ganhou com uma segunda marca, mas tamb√©m fez o que Rossi n√£o fez, vencer com a Ducati.

A mudança dá a Lorenzo a chance de fazer alguma história por si próprio. Se ele vencer corridas na RC213V Рo que certamente fará Рele se tornará o quinto piloto a conseguir vitórias da categoria rainha em três marcas diferentes de motos, seguindo as pistas de Lawson (Yamaha / Honda / Cagiva), Loris Capirossi (Yamaha / Honda / Ducati), Randy Mamola (Suzuki / Honda / Yamaha) e Mike Hailwood (Norton / MV / Honda).

Mudan√ßa sempre envolve riscos, e as duas √ļltimas temporadas de Lorenzo na Ducati n√£o foram f√°ceis. O tricampe√£o de MotoGP deixou de ser um corredor consistente para se tornar um mediano. No final da primeira temporada Jorge come√ßou a mostrar-se competitivo, liderando algumas corridas em Misano, Arag√£o e Sepang, e subindo ao p√≥dio algumas vezes. Contudo, desde o in√≠cio da temporada 2018 parecia que o seu tempo na Ducati tinha acabado, e ele seria considerado um ‚Äúfracasso‚ÄĚ. Ent√£o a Ducati trouxe um tanque de combust√≠vel redesenhado para Mugello, e Lorenzo viu o seu destino se transformar. Ele venceu duas corridas seguidas, em Mugello e Barcelona, e, de repente, passou a ser considerado um competidor de peso em praticamente todas as corridas restantes.

Mas era tarde demais. Mentes brilhantes dentro da Ducati já haviam selado o seu destino. A Ducati decidiu se livrar de Jorge, e Lorenzo decidiu mudar para a Repsol Honda em 2019, surpreendendo aqueles que esperavam o seu retorno à Yamaha, em uma equipe satélite. O apogeu do tempo de Lorenzo na Ducati foi também o seu canto de cisne.

Em uma entrevista publicada em dezembro/2018 na motorsport magazine, Lorenzo disse que a sua passagem pela equipe italiana o ajudar√° a se adaptar mais r√°pido √† Honda. Ele falou francamente sobre as li√ß√Ķes que aprendeu sobre si mesmo; sobre como se adaptar √† moto mudando o seu estilo de pilotar; e principalmente — aprendeu a ser estrat√©gico.

Nas “entrelinhas” da fala de Lorenzo pode tamb√©m estar uma das respostas para a quest√£o: “por qual raz√£o a Ducati come√ßou a ganhar ap√≥s a troca de pneus Bridgestones por Michelin?” Angulo de inclina√ß√£o menor e mudan√ßa do tra√ßado nas curvas feita pelos pilotos parecem ser fatores determinante para um melhor rendimento da Desmosedici durante as corridas. Em outras palavras, eles (Ducati) transformaram uma adversidade em oportunidade ap√≥s a mudan√ßa dos pneus e da eletr√īnica. Confira!

Como sua técnica de pilotar mudou para se adequar aos pneus Michelin?

Quando eu estava na Yamaha, n√£o muito. O problema com a dianteira da Michelin √© que voc√™ tem que frear em linha reta, e soltar o freio dianteiro, se voc√™ n√£o quer perder a frente indo para a curva. A frente da Bridgestone dava a possibilidade de usar a frenagem com mais for√ßa e mant√™-la at√© ao √ļltimo momento, quase na inclina√ß√£o m√°xima. Com os Michelins voc√™ n√£o pode fazer isso – voc√™ precisa desacelerar mais a moto com os freios, usar um pouco mais de velocidade na metade da curva, em seguida, preparar a sa√≠da da curva com o pneu traseiro.

E a sua técnica na Ducati?

A Ducati ainda sofre no meio da curva porque a traseira sempre tem mais grip que a dianteira, e a dianteira est√° sempre sendo for√ßada, por isso, para fazer a curva precisamos abrandar muito. Com a Ducati este problema √© ainda maior e tamb√©m a moto n√£o √© f√°cil para o meu estilo. A Ducati √© muito especial porque n√£o se pode inclinar a moto – se fores mais do que um certo √Ęngulo de inclina√ß√£o, a moto gira menos. Com todas as outras motos, quanto mais voc√™ se inclina, mais a moto gira, mas com a Ducati h√° um certo limite que voc√™ n√£o pode ultrapassar.

Por que isso acontece?
Eu n√£o sei.

Então você tenta reduzir a inclinação o mais breve possível?

Com a Ducati voc√™ precisa fazer o tempo de volta aproveitando a estabilidade da moto: entre precoce no √°pice, permane√ßa o menor tempo poss√≠vel em qualquer √Ęngulo de inclina√ß√£o e aproveite toda a acelera√ß√£o.

Isso deve ser uma coisa enorme para você, porque é o oposto do seu estilo de pilotagem habitual?

Sim, passei mais de um ano tentando aprender. Eu estava inclinando, mais e mais, mas quanto mais eu me inclinava mais lento eu estava no meio da curva!

Quando você consertou isso?
N√£o sei, mas comparei os meus dados com [Andrea] Dovizioso e [Danilo] Petrucci e eles foram mais r√°pidos que eu no meio da curva com menor √Ęngulo de inclina√ß√£o. Por qu√™? Eu n√£o entendi. Como isso √© poss√≠vel? Mas √© assim mesmo.

Como você usava o freio traseiro mais na entrada de curva ou para ajudar a inclinar a moto no meio dela?

Com a Ducati você tem que usar muito o freio traseiro, especialmente na entrada de curva, porque se as duas rodas estiverem alinhadas e não deslizando, a moto quer ir direto para o cascalho. Você precisa conduzir a moto como um barco, com a traseira, para obter a direção certa na curva.

Isso foi bastante √≥bvio durante a corrida em Brno – voc√™ estava de lado em muitas curvas ‚Äď algo que nunca vimos na Yamaha.

Andrea esteve na Ducati cinco ou seis anos antes de compreender todos estes truques, para poder aproveitar o potencial da moto. Eu precisava entender todos esses pequenos truques em pouco tempo e, quando entendi, minhas performances melhoraram.

Como mudaste a tua técnica na entrada de curva em Mugello, onde ganhaste a tua primeira corrida com a Ducati?

Isso foi mais para ajudar o pneu dianteiro a sobreviver. N√£o era tanto uma quest√£o de velocidade, era apenas uma quest√£o de fazer o pneu sobreviver.

Mas basicamente, você foi mais suave com o pneu dianteiro?
Sim.

Quando todos começaram a pensar em forçar menos os pneus dianteiros e traseiros?

Voc√™ tem que ser suave, mas s√≥ at√© certo ponto, porque se voc√™ for muito suave voc√™ n√£o vai parar a moto e tamb√©m n√£o pode virar a moto, ent√£o voc√™ est√° lento. √Č um acordo. Os Michelins s√£o bons para mim em algumas √°reas. Por exemplo, na fase de acelera√ß√£o, porque sou muito suave com o acelerador na sa√≠da da curva.
Por outro lado, os Bridgestones eram um pouco melhores para a minha estrat√©gia e para o meu foco porque os pneus me davam a possibilidade de for√ßar da primeira √† √ļltima volta, no mesmo ritmo. Eu sou muito bom em focar e me concentrar – eu n√£o cometo erros – ent√£o foi dif√≠cil para meus rivais me ultrapassarem. Agora todos os pilotos precisam salvar os pneus e rodar a 80% da velocidade m√°xima durante os primeiros tr√™s quartos da corrida, depois atacar. Ent√£o, por essa raz√£o, os pneus atuais s√£o provavelmente um pouco piores para mim.

Você diz que os Michelins não se adequam à sua estratégia natural Рquanto tempo você demorou para trabalhar nisso, porque você liderou algumas corridas em 2017 e depois sumiu?

Durante 2017, n√£o consegui mudar minha estrat√©gia para melhorar meus resultados porque n√£o tinha o ritmo e n√£o tinha o conhecimento que tenho nessa temporada. Em 2017 eu n√£o sabia pilotar a Ducati em certas curvas e n√£o sabia como poupar os pneus, ent√£o minha √ļnica possibilidade era ser o mais r√°pido poss√≠vel no come√ßo, porque eu tinha uma boa sensibilidade com os pneus nas primeiras voltas, melhor do que os outros caras, ent√£o eu tentei construir um espa√ßo t√£o grande quanto poss√≠vel.

Este ano eu tenho muito mais conhecimento, porque sou muito mais experiente com a moto e os pneus. Em Brno [onde Lorenzo lutou pela liderança e terminou 0.178 segundos atrás de Dovizioso] eu tentei esta nova estratégia de preservar os pneus para o final da corrida, então agora provavelmente tentarei a mesma estratégia em outras pistas. Isso é bom porque agora conheço outras maneiras de obter bons resultados.

Quais são as principais diferenças entre o GP17 e o GP18?

Tudo: o chassi é diferente e o motor é diferente. Eles fizeram o motor mais suave e tentaram fazer a moto virar mais. Ele se torna um pouco melhor, mas normalmente quando você tenta algo novo, a moto não é 100% melhor; talvez você melhore sete ou oito pontos em dez, mas dois ou três pontos são piores. Isto é o que aconteceu com a Ducati e é por isso que em algumas faixas os caras nos GP17s são muito rápidos. Em algumas pistas, a moto antiga pode ser melhor.

Nós subestimamos a dificuldade de montar em uma moto tão diferente este ano. A parte final que me permitiu gerir a moto ao longo de toda a corrida foi o tanque de combustível modificado que conseguimos em Mugello. Antes de Mugello e depois de Mugello foi para mim dois campeonatos diferentes.

Quanto ao porque não vou estar com a Ducati no próximo ano: as pessoas subestimaram a minha capacidade devido aos meus resultados. Eles estavam pensando muito a curto prazo e esqueceram o que eu fiz no passado.

√Č triste, porque sei que poder√≠amos ter conseguido coisas melhores juntos. O legado que vou deixar √† Ducati √© que agora conhecem mais formas de melhorar a moto. O legado para mim √© que sei que posso mudar meu estilo de pilotagem para conduzir outra moto de forma completamente diferente e ser competitivo. Espero levar isso comigo para a Honda.