Jorge Lorenzo vive seu momento mais difícil no MotoGP. Isso pode piorar?

“Resiliência”, de acordo com a mais recente definição postada no Twitter de Jorge Lorenzo, é a “capacidade de lidar com as adversidades da vida, transformar a dor em uma força motriz para superar e emergir fortalecido por ela. Uma pessoa resiliente entende que ele é o arquétipo de sua própria alegria e de seu próprio destino”.

Para acumular cinco campeonatos mundiais e 65 vitórias no MotoGP – apenas Agostini, Rossi, Nieto e Hailwood têm mais – você assumiria que a resiliência é um requisito. Alguém que duvide da vertente de Lorenzo tem que ter uma memória curta (Mugello ano passado, alguém?). Mas diga quão longe o homem de 32 anos está nos últimos meses? Quantas “adversidades” ele enfrentou, que agora ele precisa lembrar seus seguidores que, sim, ele possui essas qualidades, e sim, ele pode voltar a partir disso. Ciente desta determinanção, Márquez declarou esta semana ao site em alemão Speedweek.com que “O ego de Lorenzo é sua maior força”.

Mas aquela foto de Lorenzo sentado no posto do comissário, do lado de fora da curva, 10 minutos depois da manobra que derrubou Andrea Dovizioso, Maverick Viñales e Rossi resumiu onde ele está agora, e sinalizou uma nova baixa. Nessa temporada, que está sendo a mais difícil até hoje para ele, isso diz muito.

O maiorquino está em 15o  no Campeonato com apenas 19 pontos. Das cinco corridas que completou, Lorenzo conseguiu o melhor resultado ao ficar em 11º. Ele classificou-se a menos de 14 segundos do vencedor da corrida e já está a quatro vitórias e a 119 pontos do companheiro de equipe Marc Marquez. Incrivelmente, é preciso voltar ao Grande Prêmio da Áustria do ano passado (dez meses e cinco dias antes da partida de domingo) para encontrar a última vez que Lorenzo terminou uma corrida entre os dez primeiros.

Felizmente houve algum entendimento depois de seu erro no domingo. O movimento de frenagem na segunda volta que explodiu a liderança e virou o Campeonato em favor de Marquez foi considerado como fatalidade por Rossi. “Isso é corrida”, encolheu o italiano. “Às vezes acontece.”

Dovizioso não encontrou motivos para rejeitar o pedido de desculpas de Lorenzo. Foi um incidente de corrida que – desconfortavelmente para o # 99 – parece ter influenciado fortemente a luta pelo título. Depois de um ano cheio de testosterona como um estreante de 250cc, Lorenzo tornou-se um dos defensores mais fortes da pilotagem segura durante sua estadia de onze anos na categoria rainha. A manobra de domingo foi singular para um piloto que não é conhecido por tais ataques de impetuosidade.

Mas Viñales fez um ponto quando ponderou o momento do ataque de Lorenzo. “Você poderia me ultrapassar na reta onde estávamos lentos! Você só precisaria esperar quatro curvas”, foi sua mensagem. Considerando que a frenagem e a entrada de curva são a maior fraqueza do Maiorquino desde que saltou a bordo da RC213V, você se pergunta por que o movimento teve que acontecer lá, com os líderes logo à frente? Não foi um bom sinal quando no sábado ele declarou “eu vou andar um pouco mais agressivo na corrida”.

Para seu crédito, ele não se esquivou de seu erro. “Nenhuma desculpa será o suficiente”, disse ele antes de admitir que “provavelmente tentou ultrapassar o Maverick no momento errado e no lugar errado”. Além disso, ele reconheceu uma certa “ferrugem” quando cortou a frente. “Eu estava muito animado, sabendo que estava me sentindo bem e senti que poderia ir mais e mais rápido.”

Eu acredito que podemos adicionar esse acidente àquela saída cheia de problemas na Argentina e a apatia em Jerez, momentos em que pensamos que o único caminho era para cima. Os problemas de Lorenzo até agora foram bem documentados. As lesões causadas por uma contusão em 2018 e um acidente “estúpido” em fevereiro, quando quebrou o osso escafóide do seu punho esquerdo, significam que, mesmo agora, após oito meses da sua estadia na Repsol Honda, ele nunca atingiu a plena forma física.

Depois vem a moto: a RC213V 2019 venceu quatro das sete corridas do ano. Mas as dificuldades relativas de Cal Crutchlow – veja matéria de Henrique Franco no Blog – sugerem que este tem sido um feito do gênio inspirado de Marquez, mais do que a Honda ter desenvolvido a melhor moto. O motor foi muito melhorado, sim, ostentando mais grunhido e velocidade máxima. Mas a luta do inglês contra a dianteira – a melhor arma da moto nos anos anteriores – revela que o equilíbrio ainda não foi atingido.

Os dois anos de Lorenzo na Ducati ensinaram-nos que, quando o equilíbrio da moto e a posição do banco não estão exatamente do seu gosto, as performances sofrem. Em Jerez, ele estava longe de ter uma sensibilidade ideal. “A moto está transferindo muito peso para a frente e é difícil para mim ter energia suficiente nos braços”, disse ele na época.

Em Mugello, as suas lutas foram evidentes para Aleix Espargaró, que passou boa parte da corrida impacientemente atrás com a sua pesada RC213V. “Ele perdeu o fluxo. Ele não está andando com confiança. Ele é um piloto fluente, mas agora ele está parando muito a moto no ápice da curva. Você pode ver que ele está lutando”, disse o homem da Aprilia.

Os comentários do chefe da equipe, Alberto Puig ao site GPOne.com/it, na semana passada dificilmente acalmaram as preocupações de que uma mudança radical no caráter da moto estivesse chegando. “O fato de Jorge não estar se adaptando à moto não significa que ela seja ruim”, disse o espanhol. “O que não podemos fazer é trocar a moto só porque um piloto não consegue se adaptar a ela, especialmente se Marc estiver ganhando.”

Depois, há a questão da aptidão. Cal Crutchlow comenta regularmente o quão física é a RC213V. As lesões explicam boa parte das lutas de Lorenzo, mas tem havido comentários sobre sua preparação nos últimos meses. Um cronograma implacável de promover seu nome para os patrocinadores pessoais privou-o de um tempo crucial que deveria ter sido dedicado à preparação física. Basta comparar sua corrida após uma falha mecânica em Austin com os esforços de Marquez quatro anos antes e as diferenças estão aí para todos verem. Contribui para isso uma declaração recente de Tony Arbolino, piloto da Moto3 que está atualmente treinando com Lorenzo na Suiça (foto acima): “Às vezes, o Jorge não aparece nos treinos” .

A tendência preocupante é justamente quando parece haver alguma luz, outra adversidade está quase sempre esperando-o ao virar a esquina: Lorenzo ficou em segundo na sua primeira sessão oficial carregando a famosa pintura Repsol no Catar antes de um high-side na manhã seguinte colocá-lo de volta no lugar; um dia positivo de testes em Jerez em maio foi seguido por uma queda assustadora na curva sete; depois, sua brilhante primeira volta em Montmeló foi desfeita pelo acidente e um evento exacerbado por uma queda rápida quanto testava a moto na manhã seguinte.

O que nos leva a perguntar: isso pode piorar? Com Assen e Sachsenring chegando – duas das suas faixas não favoráveis no passado – existe essa possibilidade. Mas Montmeló pelo menos ofereceu um raio de luz. Foi, ele disse, “o final de semana mais consistente” do ano. Os primeiros 23 cantos da corrida de domingo foram clássicos para Lorenzo: rápido e afiado fora da linha, ganhou seis posições na primeira volta em uma blitz rápida para a frente.

Sua viagem à sede da HRC no Japão no início de junho pareceu dar frutos. A posição de pilotagem foi trabalhada ainda mais e a reação da Honda em trazer outro tanque de combustível atualizado com aletas auxiliou na frenagem. “Eu tenho que dizer que a Honda trabalhou muito rápido”, disse ele após o teste de segunda-feira em Barcelona. “Fiquei realmente surpreso com a capacidade e a velocidade de me dar essas novas peças e algumas delas foram boas.” Após um dia do pior momento de sua carreira ele continuou a olhar para frente, focado no futuro.

O que nos traz de volta à resiliência. Se a sua história for considerada, Lorenzo voltará disso. Afinal de contas, este é o piloto que uma vez terminou em quarto lugar dois dias depois de quebrar os dois tornozelos. O mesmo piloto que resistiu em ceder um título a Valentino Rossi, o que levou o veterano italiano a pressionar o botão de autodestruição. Ã‰ aquele que ganhou sua primeira corrida pela Ducati dez dias após o CEO da empresa – o Gargamel para alguns fãs do Blog — ter minimizado suas conquistas, afirmando que ele era â€œapenas um grande piloto”.

Lorenzo tem que voltar. Ele não tem outra opção. Porque, sejamos francos, se a vida não ficar mais fácil nos próximos meses, ele tem poucos lugares para ir…