KTM no MotoGP: Os maus passos não foram inúteis.

“Certamente enfrentaremos uma curva de aprendizado mas alcançaremos o pódio. O sonho da minha vida é ser campeão mundial de MotoGP”
Stefan Pierer – CEO da KTM, 2016

Que importa o caminho seguido, se é reto ou ziguezagueante? Com uma curva de aprendizado bastante rápida, em duas temporadas e meia a KTM passou da parte de trás da grid para se aproximar dos cinco primeiros. Isso é rápido o suficiente para a KTM? Para responder a essa questão, faremos uma análise sobre o progresso do projeto KTM no motoGP e as lições aprendidas ao longo do caminho, notadamente os benefícios de ter quatro pilotos em vez de dois, o papel desempenhado por Dani Pedrosa e como funciona o processo de feedback dos pilotos no desenvolvimento da moto. Não abordaremos a situação de Zarco – já muito comentada no blog, e a especulação da vinda de Gigi Dal´Ignea para a Ktm porque se trata apenas de “rumores”.

Primeiramente vamos tirar do caminho uma pergunta antiga, já discutida muitas vezes aqui no Maniamoto. A KTM ficará com uma estrutura de treliça de aço e uma suspensão WP? Historicamente a KTM tem muita experiência com estruturas de aço. Então, aprenderam como usá-las para várias aplicações muito diferentes, e como atingir diferentes objetivos. Querem usá-la como ponto forte da fábrica, porque sabem como lidar com esse material. Eles têm o processo; são rápidos em fazer, modificar e atualizar o material. Teriam que desistir desse conhecimento técnico conquistado se começassem algo com um material diferente: “As coisas se tornariam mais complicadas”, disse Sebastian Risse, engenheiro chefe da equipe. Em outras palavras, irão manter essa estrutura.

Fazer cada coisa em seu devido tempo. Eles avançaram muito rápido em dois anos e meio? Obviamente as expectativas sempre precisam ser ajustadas, dependendo da situação. Cedo, eles aprenderam que se quisessem ser competitivos no MotoGP teriam que evoluir a cada três meses, em vez de a cada três anos, para não ficar parado em termos de resultados. Por isso, agora é comum ver a equipe testar novas atualizações em um espaço curto de tempo. Passaram por um período sombrio no ano passado quando Pol e Mika Kallio se lesionaram, e aprenderam com isso. Felizmente, estão tendo uma temporada muito constante e saudável este ano. Portanto, os resultados não se devem apenas ao progresso técnico.

Em que nível técnico está a moto atualmente? Na verdade, não fizeram uma mudança radical na moto durante o inverno. A grande mudança ocorreu na última parte da temporada passada. No inverno apenas a tornaram melhor, mais leve, mais fácil de pilotar, e assim por diante. As primeiras grandes atualizações aconteceram na fase pré-teste em Sepang e Doha, e, depois, novamente em Jerez. Foi em Jerez que ficaram felizes com o caminho descoberto. Hoje Pol pode fazer um P6 ou P8 sem ter que procurar por um milagre. Não existe mágica, é trabalho duro, mas ele consegue fazer isso. Se algo não corre bem, ainda assim é possível ver Pol entre os 10 primeiros. Isso não é um progresso em relação ao ano passado?

Obviamente, o fato de ter quatro pilotos com motos de fábrica e um piloto de testes diferenciado – Dani Pedrosa – cuja contribuição é singular, faz a diferença. Pol parece ser um tipo muito específico de piloto, porque ele está sempre empurrando a moto, tentando domá-la. Não existe no MotoGP muitos pilotos com as características de Pol. Em contraste, J. Zarco veio da Yamaha e a Yamaha é uma moto que você precisa deixar ela fazer o trabalho. E, parece que Miguel tem sido realmente valioso, porque ele não sabia o que esperar da moto. Veio “sem vícios”, um pedaço de papel em branco, disse Mike Leitner ao site em alemão Speedweek. Miguel está na KTM desde a Moto3, conhece muito bem a fábrica e vice-versa. Fábrica e piloto aprenderam a confiar um no outro, acreditam que as coisas vão funcionar. Miguel entende onde um certo estilo de pilotagem é benéfico ou não.

Similar, Dani Pedrosa também tem um estilo de pilotagem bastante interessante, porque a Honda não é uma moto fácil de conduzir. Ele tem a combinação certa de agressividade, suavidade e sabe onde gastar a energia. Mike Leitner comentou que Dani Pedrosa é muito sensível como piloto, e essa foi uma das razões para contratá-lo e também para contratar Mika, porque ambos são pequenos e têm muita sensibilidade com a moto. Além disso, eles não podem usar o corpo para conduzir a moto, então eles têm que controlá-la muito mais na entrada de curva.

Escutemos nossa experiência: Quanta diferença faz ter Dani como piloto de testes? As primeiras coisas que Dani focou foram mais no motor e nos componentes eletrônicos, porque ele sentiu que algumas áreas precisavam ser ajustadas a ele antes que ele pudesse olhar tanto para as outras. Essa também é uma área em que ele é muito sensível e bom. Então, usaram um tempo com ele para realmente trabalhar também nos detalhes e fazer um pacote, e depois ver como isso é transferido para os outros pilotos.

 

 

Acredito que essa “mistura” da KTM – Pol olha o que Dani está fazendo – está contribuindo para a evolução de Pol como piloto, e, ao mesmo tempo, está tornando a moto mais forte.

Mas como a KTM conseguirá gerir feedbacks de pilotos tão distintos? Aparentemente o foco de cada piloto deve estar em uma área diferente. Por exemplo, Pol precisa que uma moto mais selvagem, quanto mais você a empurra, mais ela responde. Para pilotar desta forma, ele tem que estar preparado para correr riscos e tem que estar em boa forma física. Mas ao mesmo tempo, ele precisa ter uma moto equilibrada nas mãos, caso contrário, o gasto de energia será muito grande. Algo que acontece hoje com Jorge Lorenzo na Honda. É necessário aprender a sofrer o que não há como evitar.

Observem que temos aqui uma situação parecida com a de Marc Márquez na Honda. Como Pol é hoje o piloto que traz os resultados para casa, não seria muito sábio da KTM mudar completamente a direção do desenvolvimento para um caminho que tiraria a agressividade de Pol em conduzir a moto. Mas é claro que a KTM, assim como a Honda, tem a intenção de abrir as portas para os outros pilotos, de maneira que todos possam pilotar bem a moto. Se hoje um leitor do nosso blog perguntar no paddock do MotoGP quem está ganhando corridas – Márquez ou a Honda – a maioria irá responder que Marc está fazendo isso.

Para não estar numa situação similar à da Honda, a KTM começou a trabalhar com dois loops principais. No primeiro, a fábrica traz 10 itens de teste para a pista e o piloto terá que resolver o que combina com ele. Portanto, esse tipo de processo de seleção permite ao piloto moldar o caráter da moto em relação ao seu estilo de pilotagem. A outra parte é checar esses itens durante os testes. Ok, o que você está procurando? Então os engenheiros precisam saber o que é preciso para conseguir o que o piloto quer, tipo tentativa e erro. A KTm aprendeu que no final é o piloto que faz a diferença.

Com relação a substituição de J. Zarco, a KTM está numa situação difícil porque não há muitos pilotos disponíveis no paddock ou mesmo fora dele. Terão que ter paciência e flexibilidade para encontrar um piloto que se adapte bem à moto.

Enfim, nada é mais vergonhoso do que decidir antes de compreender e de saber.  A KTM sabe que para caminhar precisa ter visão, e também ser capaz de se autocriticar, parar as coisas se algo não funcionar. Segundo Gigi Dal´Ignea é muito fácil tomar o caminho errado.

Grande é tudo o que é suficiente. Agora eles têm informações de um piloto ex-Honda, de um ex-Yamaha, e de alguém com uma mente renovada, sem experiência nessa classe.  Acredito que no geral isso faz um bom pacote, e tudo o que se ajusta às circunstâncias é digno de apreço. Como fãs do MotoGP só podemos desejar que a fábrica alcance o sucesso desejado…