Marc Márquez precisa mudar de equipe para provar a sua genialidade?

Toda essa troca de farpas entre torcedores do MotoGP que pilotos da categoria rainha precisam ganhar títulos em diferentes motos para selar seu status de “gênio” é um conceito cuja origem está datada em 2003/2004, quando Valentino Rossi trocou a Honda pela Yamaha.

Quando Rossi ganhou a coroa do MotoGP de 2004 em uma YZR-M1, ele tornou-se o quarto piloto a ganhar títulos da classe rainha com diferentes marcas, depois de Geoff Duke (Norton e Gilera), Giacomo Agostini (MV Agusta e Yamaha) e Eddie Lawson (Yamaha e Honda). Mais tarde, o celebrado Casey Stoner tornou-se o quinto (Ducati e Honda). Importante ressaltar, no entanto, que Rossi, Duke, Ago, Lawson e Stoner não mudaram de marca principalmente para consolidar sua credibilidade.

“Os pilotos campeões quase sempre trocam de fabricante por causa de dinheiro, maquinaria ou administração, não porque desejam ganhar em motos diferentes.”

Em 2003, Rossi decidiu deixar a Honda, depois de vencer três títulos seguidos com a NSR500 e a RC211V. O italiano brigou com a diretoria da Honda, embora parte da culpa deva estar com seu gerente Gibo Badioli, que não é um homem fácil de se fazer negócios (fonte – biografia de Rossi). Na época a Honda ofereceu a Rossi um salário muito próximo de seu segundo piloto, acreditando que a moto era mais importante que o piloto, pois a fábrica ganhara vários títulos consecutivamente. Quando as negociações fracassaram, Rossi decidiu deixar a Honda. Somente mais tarde o italiano foi atraído pelo desafio de vencer com uma YZR-M1 da Yamaha, porque queria provar que o piloto é mais importante que a moto. Uma lição que a Honda aprendeu e que jamais esquecerá.

No final de 2010, Casey Stoner trocou a Ducati pela Honda, não pelo desafio, mas porque ele havia se desentendido com a gerência da Ducati. O início do fim chegou no verão anterior, quando Stoner perdeu várias corridas devido a uma doença causada por intolerância à lactose não diagnosticada (ou terá sido a pressão em ter que ganhar?). O australiano mal-humorado não gostou da falta de preocupação da gerência com seu bem-estar. E ficou furioso quando soube que a Ducati havia oferecido a Jorge Lorenzo um acordo com o dobro do dinheiro que estava ganhando, então quando a Honda chegou ligando …

Similar, Rossi trocou a Yamaha pela Ducati, porque a Yamaha decidiu que Lorenzo era o futuro. Rossi nunca venceu uma corrida, muito menos conquistou um título na Desmosedici, então esse fracasso nega seu sucesso na Yamaha? Claro que não. Simplesmente confirma que a sintonia fina – motocicleta/piloto é o fator dominante em qualquer equação para conquistar o título.

Rossi não teria conquistado o título sem Masao Furusawa criando o motor de big bang da Yamaha e o chefe de equipe Jeremy Burgess consertando o terrível chassi da M1. Acrescento ainda outra variável – a adaptação que a moto Yamaha teve com os pneus Brigdestone.

Como resolver o problema chamado Marc Márquez?

O fato de a Honda saber exatamente que tipo de mágico eles têm em suas mãos ficou evidente quando contrataram Marquez por mais dois anos. Muitos torcedores especulam, notadamente aqui no Blog, sobre o futuro caminho que o atual campeão do MotoGP pegará após o término de seu contrato, em 2020, acreditando que Marc tem que vencer corridas e ganhar títulos com diferentes marcas para provar que realmente é fora de série.

Isso faz sentido? Acredito que talento não se mede em que o piloto está andando, e sim como ele está andando numa determinada motocicleta, no momento atual. Em outras palavras, seria a habilidade de um piloto em conduzir uma determinada moto. Pol Espagaró é um exemplo. Todos podem ver como o habilidoso piloto espanhol conduz a difícil KTM nas curvas.

Ganhar em motos diferentes é uma conquista, mas não faz dele um piloto melhor. A adaptação de uma moto para outra é apenas uma variável no grande número de habilidades dos pilotos velozes. De qualquer forma, todos os grandes pilotos já provaram sua capacidade de adaptação ao passar de uma categoria para outra. Notadamente no caso de Marc Márquez, ele venceu nas três categorias que passou (KTM – Honda – Honda), utilizando três motos totalmente diferentes. Eu diria quatro. Por que?

A troca de pneu pode ser ainda mais desafiadora que mudar de fábrica, mas ninguém fica empolgado com quem ganhou títulos com diferentes marcas de pneus. Marc Márquez é o único piloto que ganhou na era Bridgestone e Michelin. Não é coincidência que Márquez ganhou todos os títulos de MotoGP desde que os pneus Michelin chegaram em 2016. Por outro lado, os pilotos da Yamaha desceram a ladeira após a troca das marcas de pneus, revelando o quanto importante essa variável é na conquista de vitórias.

É desnecessário também falar dos “saves” de Marc Márquez. Essas defesas espetaculares são apenas a ponta do iceberg do talento do espanhol – são sinais de suas habilidades únicas que espectadores como você e eu podemos realmente ver. O que não conseguimos ver é o verdadeiro segredo da velocidade cotidiana de Márquez, que é como suas reações sobre-humanas permitem que ele brinque com o pneu dianteiro quando ele ataca uma curva. Dentro de sua cabeça, ele tem o melhor sistema ABS do mundo, dizem alguns especialistas do motoGP.

Segundo Cal Crutchlow, depois da troca de pneus Bridgestone para Michelin, Marc é o único piloto da fábrica que consegue frear em curvas com bastante ângulo – “ele quase que flutua nas curvas”. No grande prêmio da Alemanha de 2019, Marc quebrou o recorde de inclinação – 66 graus!

Contudo, é mais fácil fazer a si mesmo esta pergunta: alguém consegue travar o pneu dianteiro em alta velocidade, manter o controle e ainda entrar em uma curva no limite? Provavelmente não. É isso que faz a diferença para Márquez: ele crava aquele pneu duro Michelin no asfalto enquanto aciona os freios, talvez um milésimo por cento de exceder o limite de tração do pneu. E então ele continua modulando essa situação até o final da curva, usando a pressão do freio, a posição do corpo e tudo mais. Numa entrevista recente sobre “Como eu piloto” para Mat Oxley, Marc diz fazer isso de forma inconsciente: “É algo que acontece…”.

Enfim, a melhor maneira de analisar a habilidade de um piloto não é observar o emblema que está no tanque de sua moto, e sim a maneira como ele conduz sua moto diante das dificuldades encontradas e quando comparado com os seus colegas de equipe.