MotoGP 2019: O Enigma da Yamaha, as dúvidas da Honda, a certeza da Suzuki, e quem irá vencer a corrida do Catar?

 

Da próxima vez que o MotoGP se reunir em um circuito de corridas, ninguém poderá usar as palavras “apenas testes” como desculpa. De agora em diante tudo conta.

A má notícia é que os ventos fortes e as baixas temperaturas fizeram com que o último dia de testes se tornasse traiçoeiro, interrompendo os planos das equipes. A temperatura da pista caiu abaixo dos 20° C por volta das 20 horas, horário em que a corrida está marcada para começar em menos de duas semanas. Entre os pilotos que caíram estão Bradley Smith, Johann Zarco, Alex Rins, Cal Crutchlow, Takaaki Nakagami, Marc Márquez, Miguel Oliveira, Tito Rabat, Jorge Lorenzo e Pecco Bagnaia. E provavelmente não é uma lista completa.

A boa notícia é que que estamos começando uma nova temporada intensamente competitiva, com quinze pilotos encerrando o último dia de teste em um único segundo, e a lista de candidatos favoritos ao título pesando em torno de sete: a Honda, Ducati e os pilotos de fábrica da Yamaha, além de Alex Rins da Suzuki. Ganhar será difícil, mas terminar no pódio se não conseguir vencer será a chave para conquistar o título.

Ritmo de corrida

Apesar das quedas, os pilotos trabalharam muito ainda. Danilo Petrucci e Andrea Dovizioso fizeram uma simulação de corrida juntos. A dupla foi mais rápida quando Petrucci liderou, e Dovizioso teve que lutar com um pneu dianteiro problemático. O ritmo deles foi impressionante, rodando abaixo de 1´55s, volta após volta. Esse parece ser o ritmo certo para a corrida, e o fato de que eles terminaram o último dia em nono e décimo quinto lugar se tornou irrelevante.

Os pilotos da Ducati estavam entre os únicos que tentaram uma corrida completa, mas não foram os únicos capazes de apresentar um ritmo de corrida decente. A corrida mais longa de Marc Márquez foi apenas de oito voltas, mas nessa corrida, ele manteve o mesmo ritmo das Ducatis. Maverick Viñales também fez oito voltas, apesar de seu ritmo ser um décimo ou dois mais lento do que o de Márquez.

Talvez a maior surpresa, não só de segunda-feira, mas também de todo o teste, tenha sido Fabio Quartararo. O francês não só terminou o dia como o segundo mais rápido depois de Maverick Viñales, como também fez uma série de 15 voltas, a maior parte do tempo entre o meio e próximo de 1’55s, sugerindo que ele pode causar alguns problemas aos favoritos em duas semanas. Até Valentino Rossi estava praticamente no ritmo certo.

Altos e baixos da Yamaha

Com todas as quatro Yamahas terminando entre as seis primeiras na segunda-feira (e entre as sete primeiras nos três dias juntos), parece que a Yamaha M1 está competitiva. No entanto, quem ouvisse Valentino Rossi no domingo estaria pronto para abandonar toda a esperança. Segunda-feira vimos uma inversão completa da “fortuna” para o italiano, quando as ideias que eles descartaram no domingo os empurraram em uma direção que funcionou.

“Ontem, trabalhamos duro e tentamos muitas coisas, talvez demais”, disse Rossi. “Mas no final, perdi a sensibilidade, não me sentia bem com a moto, por isso não tive vontade de acelerar. Mas hoje, recuamos um pouco. Usamos mais as coisas que eu gostei também na Malásia, e me senti melhor com a moto, especialmente na última hora e meia. Meu ritmo não é tão ruim. Então, o final do teste foi positivo. Podemos ser bastante fortes.”

O maior problema da Yamaha, de acordo com Valentino Rossi, é a falta de aceleração e velocidade máxima. Mas a falta de velocidade máxima não é novidade, ele disse. “Sinceramente, nós lutamos com velocidade máxima desde 2004. E mais ou menos, estamos sempre no mesmo barco, então de ontem para hoje, não podemos fazer nada. No entanto, a M1 foi rápida o suficiente para tocar. A minha ideia é que ainda precisamos de algo mais, especialmente contra os caras do topo, e contra as Hondas e as Ducatis de fábrica. Esta é a minha ideia. Mas esperamos trabalhar o máximo na próxima semana e tentar lutar.”

Viñales – agora piloto de desenvolvimento da Yamaha

Parece razoável atribuir pelo menos parte do trabalho feito pela Yamaha à Maverick Viñales. “Agora, eu acho que assumi um pouco do peso em termos de desenvolvimento da moto, e isso é muito importante”, disse ele.

Viñales finalmente obteve as mudanças que ele estava pedindo em Buriram em outubro passado. Como isso funcionou, a Yamaha ficou muito mais inclinada a ouvi-lo. “Depois da Tailândia, assumimos um pouco mais nossa responsabilidade na equipe, trabalhamos juntos, tentando entender o caminho mais rápido. E acho que estamos num bom caminho, mas temos que ser pacientes. É muito difícil encontrar aderência em apenas um dia. Então, precisamos continuar e continuar tentando”.

Viñales tem sido muito mais positivo sobre a Yamaha 2019 do que seu companheiro de equipe, até porque ele tem sido muito mais competitivo que Rossi durante os testes, e é apontado como favorito para o campeonato por quase todos os principais pilotos. Mas Viñales ainda vê fraquezas na M1. “Primeiro de tudo temos que melhorar a aceleração, e então estaremos prontos. Acho que a próxima corrida vai ser muito importante para nós, para ver se conseguimos ganhar vantagem. Nossa moto tem muitas coisas positivas, coisas boas, mas também várias negativas. Então, agora precisamos tirar uma conclusão e ver se podemos melhorar.”

Honda luta na saída de curvas e com a falta de sensibilidade na dianteira

A Yamaha não é a única fábrica em que os pilotos duvidam da moto de 2019. Os compromissos feitos na Honda para tornar a RC213V melhor na saída da curva vieram à custa de comprometer a sensibilidade na dianteira, e isso prejudicou a confiança. Mas o trabalho feito no último dia do teste deu a Marc Márquez, pelo menos, a fé de que o progresso está sendo feito.

“Dia positivo, e muito feliz, porque no primeiro dia aqui, nós começamos muito atrás, estávamos um segundo mais lento por volta”, disse Márquez. “Ontem estávamos mais perto, e hoje podemos dizer que estamos em um nível muito bom para lutar pelo pódio. Então, isso é o mais importante em um circuito onde normalmente sofremos. Estou especialmente feliz porque ontem eu dei 58 voltas. Após, fiquei um pouco preocupado em ver como estava o ombro hoje. O ombro ficou bem, então eu dei 53 voltas novamente, e me sinto pronto para começar a temporada de uma forma muito boa”.

No entanto, ainda existem áreas de preocupação. “Vimos que na velocidade máxima, melhoramos. Isso é importante”, enfatizou Márquez. “Mas ainda estamos perdendo algumas coisas com as quais estávamos lutando no ano passado. E ainda estamos lá trabalhando, na saída da curva, para tentar encontrar mais força e tração. É para isso que estamos trabalhando. E outra coisa é a frente. Nós mudamos um pouco o chassis, mas ainda está difícil entendê-lo. E vimos hoje, quando a temperatura baixou, todas as quatro Hondas caíram. Isso significa que ainda precisamos trabalhar nisso, e tentar entender por que não podemos usar os pneus macios no lugar dos compostos mais duros”.

O que acontece se Márquez cair?

O problema de usar pneus duros é que você tem que correr mais riscos, e Marc Márquez sofreu as consequências ao cair na curva 6. Foi um acidente considerável, mas acabou tranquilizando Márquez, em vez de bater sua confiança.

“Hoje testei o ombro muito bem!” ele brincou. “Eu caí na curva 6, à esquerda, e caí quando estava completamente ereto. Eu estava usando o pneu dianteiro duro, porque é o pneu com o qual me sinto melhor, mas a temperatura caiu muito, e estava ventando, e eu perdi a frente por causa da temperatura. Mas eu testei o ombro bem, e está tudo bem. Estou pronto para lutar!”

Márquez parecia extremamente confiante, apesar da rivalidade que enfrenta. Os finais de semana de corrida são completamente diferente, disse ele. “Na pré-temporada, todo mundo é rápido. E na primeira corrida, todo mundo vai ser rápido, porque todo mundo já testou aqui. A coisa real chega quando você vai para a Argentina, Austin e Jerez sem testes.

É uma coisa quando você tem o dia todo e você não tem pressão, e você pode andar como quiser, então é mais fácil fazer o tempo de volta. Mas em um fim de semana de corrida, tudo é mais difícil. Não há necessidade de acelerar agora. Ambas as Ducatis estão muito atrás, mas, ao mesmo tempo, estão muito próximas, por isso são espertas. Assim, não há sentido em tocar forte e ser o primeiro porque você começa a temporada com zero pontos.” Estará aqui Marc dizendo que as Ducatis estão escondendo suas performances?

O companheiro de equipe de Márquez deu um grande passo à frente na segunda-feira, mas apenas em uma volta. A volta rápida de Jorge Lorenzo colocou-o em quinto lugar na segunda-feira, mas o seu ritmo de corrida foi significativamente mais lento dos pilotos da frente, por volta de 1m56, quando Márquez e as Ducatis circulavam próximo a 1´55s. A boa notícia para Lorenzo é que ele está se adaptando à Honda muito mais rápido do que o fez com a Ducati. A má notícia é que ele ainda tem algum trabalho a fazer.

Marc Márquez elogiou o trabalho que Lorenzo fez, mas também emitiu um alerta severo. “Eu vi que ele fez uma volta muito boa, em uma volta rápida ele era forte”, disse Márquez, “mas do ritmo da corrida, ele está ainda muito distante no momento. Então vamos ver durante o fim de semana da corrida. Normalmente é um circuito em que ele pilota muito rápido, combina bem com seu estilo de pilotagem, mas vamos ver, acho que ele fez um bom trabalho, e é claro que ele precisa de tempo, mas você sabe, você está na Honda HRC, e você tem que estar na frente”.

Rins e a certeza da Suzuki

Onde os pilotos da Yamaha e da Honda têm suas dúvidas, Alex Rins é bem claro sobre onde ele está. Sua resposta quando perguntado sobre os pontos fortes e fracos da Suzuki GSX-RR não deixou nada aberto à interpretação. “O ponto positivo é que temos uma boa base em todos os aspectos e não temos pontos negativos”. Um grande elogio à Suzuki.
As melhorias feitas durante o inverno colocaram a Suzuki no lugar certo para a temporada começar. “Estamos muito preparados”, disse Rins. “Fizemos um trabalho muito bom durante os testes.”

Corrida de abertura do MotoGP

Quem vai ganhar a corrida de abertura? Valentino Rossi deu a sua avaliação após o término do teste. “Para mim, Maverick está em ótima forma. Aqui e na Malásia, ele sempre esteve na frente. E o outro nome é Rins, que é muito rápido, e que anda muito bem, e parece que a Suzuki melhorou; Mir está rápido e também as duas Ducatis. Dovizioso é muito forte aqui no Catar, mas Petrucci foi impressionante no teste, e, com certeza, Márquez. Para mim são os caras que estarão no topo. ”

Em uma semana, os pilotos se reencontram no Circuito Internacional de Losail para a primeira corrida da temporada. Todo mundo começará a temporada com zero pontos, como Marc Márquez apontou corretamente. Enfim, chega de testes…