O que esperar das equipes em Sepang?

 

Apesar de as motos já estarem circulando no circuito de Sepang, a temporada de MotoGP só começará quando a equipe completa (quase) de pilotos oficiais chegar à pista da Malásia nesta quarta-feira. Depois da longa pausa de inverno, finalmente conseguiremos ver como pilotos e equipes se prepararam para a nova temporada.

O teste de Sepang será um pouco diferente este ano, como resultado dos ajustes das regras de teste. Com dois testes oficiais em novembro, Valência e Jerez, ao invés do teste oficial de Valência e um teste particular em outro lugar, todas as fábricas seguiram a mesma preparação no final de 2018. Nos testes prévios as equipes tiveram uma ideia mais clara de como os motores vão reagir em circuitos mais “estreitos”, em condições mais frias, onde uma potência maior será mais difícil de conter. Assim, novembro tornou-se o mês de preparação de motores, com Sepang agora sendo usado como uma confirmação.

Há ainda muito a ser trabalhado. O Circuito Internacional de Sepang tem um pouco de tudo: retas de alta velocidade, curvas velozes e rápidas, frenagens bruscas, curvas lentas e apertadas, e rápidas mudanças de direção. Embora o calor tropical de Sepang possa roubar alguns cavalos de potência do motor, a pista desafia chassis, aerodinâmica, suspensão e resposta do acelerador. Três dias nunca parecem ser tempo suficiente para fazer tudo, especialmente se o tempo na pista não colaborar devido as chuvas da tarde que podem ocorrer nos trópicos.

Mas o que podemos esperar do teste das várias fábricas? Abaixo, um resumo dos desafios de cada equipe.

Honda – As lesões irão atrasá-los?

O começo da temporada 2019 não é dos melhores para a Equipe Honda. Marc Márquez está se recuperando de uma cirurgia no ombro, e apesar de sua reabilitação estar indo bem, ele ainda está sem força e estabilidade no ombro esquerdo. Isso será um problema, notadamente durante as frenagens fortes, ainda que consiga fazer voltas rápidas.

Os testes serão prejudicados? O objetivo do teste é tentar entender o comportamento da moto para que os engenheiros possam trabalhar em cima da informação. Se Márquez tem que pensar em sua pilotagem mais do que o normal, esse desvio impedirá que se concentre totalmente na moto. Não deixa de ser uma distração, ainda que pequena, e fará com que a análise de vários componentes se estenda por um período acima do desejado.

Para piorar as coisas, Márquez não terá seu companheiro de equipe para ajudá-lo. O escafóide quebrado de Jorge Lorenzo o deixou em casa, na Suíça, concentrado em sua preparação para o teste do Qatar, que começa no dia 23 de fevereiro. Lorenzo havia se adaptado com relativa rapidez à Repsol Honda, e sua participação seria inestimável em um circuito onde ele é forte. A carga de trabalho de Lorenzo será assumida pelo piloto de testes da HRC Stefan Bradl. Embora Bradl seja rápido, ele não é tricampeão de MotoGP.

Normalmente, os pilotos da Repsol Honda partilham a carga de testes com Cal Crutchlow da LCR Honda. Como seu contrato é com a HRC, ele tem acesso às peças mais modernas. Recentemente Crutchlow quebrou o tornozelo em um acidente em Phillip Island, onde sofreu uma fratura complexa necessitando que todo o tornozelo fosse reconstruído.
Embora Crutchlow esteja pedalando intensamente – costuma treinar com o campeão mundial de 2011 Mark Cavendish –, ele ainda sente dor no tornozelo. Por um bom período ainda vamos assistir Crutchlow reclamando de dor e dificuldade para frear sua moto.

Em Valência e Jerez, a Honda verificou uma especificação de motor que deixou todos aqueles que a testaram contentes, e, assim, começaram a trabalhar em um novo chassis, focado em tornar a moto menos dependente das frenagens. Eles trabalharam para que o pneu dianteiro com composto médio funcionasse, em vez de serem forçados a usar um composto duro o tempo todo, o que reduz o risco de queda na entrada de curva. Menos risco significa menos falhas e menos falhas podem significar melhores resultados.

Manter o foco em melhorar a entrada e saída de curvas exige muito dos pilotos, e como a Honda é uma moto muito física, será difícil para Márquez e Crutchlow manterem a intensidade necessária ao longo dos três dias de testes em Sepang, especialmente no calor tropical da Malásia.

Takaaki Nakagami receberá uma ligação para ajudar nos testes? Ao contrário de Crutchlow, ele é contratado diretamente da LCR, em vez da HRC. Por outro lado, ele foi o mais rápido no teste de Jerez. A velocidade de Nakagami em Jerez revela que a Honda RC213V 2018 é uma excelente plataforma. Com um motor ligeiramente melhor, testado no final do ano passado, e alguns avanços no chassi, a moto 2019 poderá ser boa o suficiente para suportar a perda dos testes dos pilotos apoiados pela fábrica.

Ducati Рinova̤̣o radical a caminho?

No final de 2013, Gigi Dall’Igna foi contratado pela Ducati Corse para mudar a “sorte” da equipe na MotoGP. Não há dúvida de que ele conseguiu quase tudo. A Ducati deixou de lutar para chegar perto do pódio, quando competia apenas contra duas outras fábricas, para ganhar corridas regularmente, batendo o incrível Marc Márquez em 2017, roubando-lhe pontos, e terminando em segundo na temporada 2018.

O sucesso da Ducati veio de não fugir das ideias radicais. Eles pediram para entrar na Classe Aberta durante o período de transição da MotoGP, visando obter maior liberdade para trabalhar nos motores e eletrônica. Eles adotaram um programa de suporte mais profundo com a sua equipe satélite, usando-a como parte do projeto da fábrica, compartilhando dados, dando-lhes peças para testar, enviando engenheiros para trabalhar com eles. E, claro, criaram toda uma nova estética de MotoGP ao introduzirem asas, forçando a Dorna e a FIM a reprimi-los, deixando-nos com a atual geração dos chamados “pacotes aerodinâmicos”, que são apenas asas redesenhadas para se adaptarem as regras frouxas da FIM.

Assim, não foi surpreendente ver a Ducati trazer algumas ideias radicais para os testes de Jerez – leia a matéria sobre a Ducati publicada aqui no blog. Um braço binário que fixa a pinça do eixo traseiro à parte inferior do suporte do amortecedor, com o objetivo de ajudar a moto a fazer curvas com a traseira (paralelogramo). Isso nos leva a perguntar o que eles trarão para o teste de Sepang.

No “shakedown”, em Sepang, as motos exibidas pareceram decepcionantemente tradicionais. Até onde os presentes puderam ver, não houve ideias radicais, nem braços de torque ou atualizações aerodinâmicas em exibição. Por trás das carenagens, a Ducati (ou qualquer um dos outros fabricantes) pode estar experimentando todos os tipos de ideias radicais. Como não podemos vê-los facilmente, fica complicado discernir.

O que sabemos é que não foi visto nada particularmente diferente em termos de aerodinâmica. No lançamento da Ducati em janeiro, Gigi Dall’Igna disse que a forma final do pacote aerodinâmico da Ducati não seria testada até o teste do Qatar no final de fevereiro. Isso faz sentido por vários motivos. Em primeiro lugar, a mistura de curvas no Qatar é talvez a melhor opção para testar a aerodinâmica. Em segundo lugar, as temperaturas mais baixas do ar no Qatar (especialmente à noite) significam que os pacotes aerodinâmicos funcionam um pouco melhor devido à maior densidade do ar, de modo que os efeitos das mudanças podem ser sentidos um pouco melhor. Mas o mais importante, dá às fábricas rivais menos tempo para copiar seus projetos.

O que a Ducati irá testar? Com certeza, mais atualizações no seu chassis. O meio da curva é uma área onde a Ducati ainda está fraca, apesar de a questão ter sido melhorada nos últimos dois anos, e, especialmente, entre a GP17 e a GP18. Qualquer melhoria que a Ducati possa fazer trará benefícios imediatos em termos de competitividade.

Andrea Dovizioso terá muito trabalho como a única figura de continuidade da fábrica com a missão “Winnow Ducati”. A grande lição para Dovizioso em 2018 foi que ele perdeu muitos pontos no início da temporada para Marc Márquez. Estar o mais preparado possível no início da temporada poderá ser a grande diferença entre disputar um campeonato ou ajudar o rival a se tornar um melhor piloto. Assim, Dovisioso se esforçará ao máximo durante os preparativos da pré-temporada.

Danilo Petrucci, por outro lado, ainda terá uma pequena adaptação no papel de piloto de fábrica da Ducati. Os benefícios da abordagem da Ducati com a equipe satélite significam que o italiano já está acostumado a trabalhar com os engenheiros de fábrica dentro do padrão Pramac, mas a pressão (não menos da mídia) de ser um piloto de fábrica não pode ser subestimada. Ele também terá uma grande mudança na sua vida para lidar ao mudar-se para morar perto da cidade natal de Andrea Dovizioso, visando treinar e se preparar mais para as corridas, algo que inclui o uso de treinador, dietas e psicólogo de Dovizioso. Acabou a festa de ir para a cama tarde, como era seu ritmo natural. Em vez disso, Petrucci acordará às 6h30 da manhã para colocar cubos de gelo em pontos selecionados de seu corpo para estimular a queima de gordura, seguindo um cronograma de treinamento.

A contratação de Pecco Bagnaia será um grande fator contribuidor de pressão sobre Petrucci, e também a promocão de Jack Miller como piloto principal da equipe Pramac, junto com a sua GP19. Isso significa que Miller terá papel importante no programa de testes da Ducati, em Sepang. Miller ficou sabendo disso em Valência e Jerez, dividindo o trabalho de avaliar novas peças para a GP19; o que deve ser intensificado na Malásia. O trabalho de Miller em Sepang não é apenas testar novas peças e fornecer feedback, mas também provar que ele tem maturidade para entender o papel que o piloto de fábrica tem, e a capacidade analítica de dar o feedback necessário aos engenheiros. Se ele acertar, estará na fila para ocupar o segundo lugar no pelotão de fábrica da Ducati ao lado de Andrea Dovizioso no próximo ano.

Se Miller falhar, então esse trabalho poderá ir para o seu companheiro de equipe Francesco (ou Pecco, como todos se referem a ele) Bagnaia. O estreante italiano foi rápido em Valência e Jerez e impressionou aqueles que o assistiram. Sua capacidade de adaptação ao estilo bem diferente de uma moto GP e a rapidez com que o fez foi notável. Bagnaia está inclinado a vencer como o estreante do ano – na verdade, espera-se que o titulo fique entre Bagnaia e Joan Mir, da Suzuki -, e se ele for imediatamente competitivo, isso poderá lhe render o segundo lugar na equipe da fábrica. Esperamos que Bagnaia seja rápido, pois ele também tem a vantagem de não ter que se preocupar em testar novas peças. Seu trabalho é apenas aprender a andar rápido na moto e gerenciar os pneus ao longo das corridas.

Não ter nenhuma obrigação de testar também significa que o esquadrão Avintia de Tito Rabat e Karel Abraham poderá se concentrar apenas na pilotagem. Rabat está retornando a sua condição física após lesão em Silverstone, onde quebrou o fêmur. Ele passou o inverno no sul da Espanha nas pistas de corrida com outros pilotos de MotoGP. A GP18, que Abraham e Rabat irão pilotar este ano, representa uma melhora significativa em relação a GP17, que Rabat teve no ano passado (e muito melhor que a GP16 de Abraham), então eles têm uma chance de serem significativamente mais competitivos.

Yamaha – a pressão está ligada

É difícil exagerar o quanto a Yamaha — a fábrica e a equipe oficial — em vez de seus pilotos, está sob pressão. Um medíocre 2018 seguiu uma temporada de 2017 que pode ser descrita como apenas moderadamente bem sucedida. A Yamaha passou mais de um ano sem vencer, e essa sequência de 25 corridas sem sucesso pesou infinitamente nos ombros da empresa. No final, causou problemas na equipe, com o líder do projeto de MotoGP, Kouji Tsuya, transferido e dois novos rostos apresentados. Hiroshi Itou assumirá o papel de Diretor Geral da Divisão de Desenvolvimento de Motorsports da Yamaha e Takahiro Sumi será o líder do grupo de MotoGP, promovido da posição de designer de chassis.

Como engenheiro de fato a liderar o projeto de MotoGP, Sumi ̩ encarregado de consertar os problemas da Yamaha Рprincipalmente, a incapacidade da moto em manter o desempenho do pneu traseiro ao longo das corridas. Todas as motos da MotoGP sofrem com o desgaste dos pneus, mas a Yamaha M1 sofre mais precocemente que os seus principais rivais.

A vitória de Maverick Viñales em Phillip Island no ano passado apontou um caminho para aliviar o problema. A Yamaha alterou radicalmente a distribuição de peso da moto a pedido de Viñales. A partir da Tailândia, onde Viñales finalmente conseguiu o que queria, as duas motos foram mais rápidas, e esta é a direção que a Yamaha deve seguir. Os novos motores testados em Valência e Jerez tiraram parte da natureza agressiva da M1 2018 graças aos virabrequins mais pesados. Valentino Rossi e Maverick Viñales chegaram finalmente a um “relutante” consenso sobre qual dos dois motores é o melhor.

Em Sepang, a Yamaha terá apenas uma especificação de partes internas do motor, mas estará trabalhando com peças periféricas – caixa de ar, tanques, escapamentos, etc – para otimizar a configuração atual. O trabalho real para Rossi e Viñales será encontrar a configuração correta da moto e do chassis para fazer o pneu durar. Infelizmente para os pilotos significará vários testes com uma enorme quantidade de pneus usados, no calor tropical, com o objetivo de analisar se as mudanças estão funcionando. Não há atalhos na MotoGP.

Viñales tem a tarefa adicional de ajustar-se ao seu novo chefe de equipe, Esteban Garcia. Ele sente que precisa de mais apoio de um chefe de equipe, e Sepang será o primeiro teste real da dupla trabalhando juntos intensamente.

Embora a Yamaha tenha sofrido muitas mudanças internamente, a maior mudança foi certamente a saída da equipe da Tech3 para a KTM, e a vinda da equipe Petronas SRT como equipe satélite. Com Wilco Zeelenberg, que anteriormente dirigia tanto Jorge Lorenzo como Maverick Viñales nas garagens de fábricas, a equipe de MotoGP já teve um arranque forte. Franco Morbidelli foi rápido na Yamaha M1, enquanto Fabio Quartararo se adaptou à nova classe.

Haverá pressão significativa sobre Morbidelli. O italiano estará com um equipamento praticamente idêntico aos pilotos de fábrica, e assim também poderá contribuir com algum trabalho no desenvolvimento. Morbidelli foi impressionante na Honda durante o ano passado, e com uma estrutura diferente ao seu redor, uma moto muito melhor na forma da Yamaha M1, e com o ex-chefe de equipe de Viñales, Ramon Forcada, ao seu lado, espera-se que ele ande na frente nos testes de Sepang. Para o Quartararo, com menos equipamento, acredita-se que o francês estará numa moto 2019 com substancialmente menos “giro” – a tarefa é continuar sua adaptação, abandonar os seus hábitos de Moto2 e aprender a dominar uma máquina de MotoGP.

Suzuki – Dando o próximo passo

A Suzuki entra no teste de 2019 em Sepang com alguma confiança. A moto de 2018 andou forte, especialmente quando eles receberam o motor atualizado em Assen. Alex Rins acumulou cinco pódios e Andrea Iannone (agora ex-companheiro) garantiu mais quatro. A Suzuki está perto e só precisa de um pequeno passo para vencer a primeira corrida.

Com o novato Joan Mir substituindo Andrea Iannone, grande parte da carga de desenvolvimento recai sobre Alex Rins. Rins cresceu em confiança ao longo da segunda parte de 2018, e no teste de Jerez, disse aos repórteres que ele estava saboreando o desafio. A Suzuki já tem um chassis e um motor forte o suficiente, então o trabalho de Rins será focado em detalhes. Um pouco mais de estabilidade na frenagem é necessário, juntamente com um pouco mais de potência e aceleração.

Joan Mir enfrentará o mesmo desafio que os outros estreantes da MotoGP: adaptar o seu estilo a uma máquina de MotoGP. Mas o jovem espanhol já fez progressos impressionantes nos testes de Valência e Jerez, terminando apenas alguns décimos de seu companheiro de equipe. Mir é amplamente elogiado por sua inteligência e vontade de aprender, e isso deve ser fundamental nas etapas de configuração.

Aprilia – De volta ao futuro

A tarefa da Aprilia em 2019 é simples: esquecer que 2018 existiu. Nos testes do shakedown (Sepang) nos dias que antecederam ao teste oficial, a Aprilia trouxe duas versões diferentes da RS-GP: a moto de 2017 e um protótipo de 2019. A moto de 2018 acabou por ser um beco sem saída evolutivo, que se mostrou incapaz de conduzir corretamente a dianteira.

Para 2019, a Aprilia está trabalhando em um motor com entrega de potência bem melhor – a moto se comporta como uma dois tempos, dizem alguns motociclistas – e assim fica mais fácil senti-la na entrada e saída de curva. A chegada de Massimo Rivola deve tirar um pouco da pressão organizacional dos ombros do patrão da Aprilia Corse, Romano Albesiano, permitindo-lhe concentrar-se mais no desenvolvimento técnico da moto.

Tal como a Suzuki, a Aprilia terá um antigo e um novo piloto, colocando muito do trabalho de desenvolvimento nas mãos de Aleix Espargaró. Mas, ao contrário da Suzuki, a Aprilia tem Andrea Iannone a juntar-se a eles, um piloto que traz experiência de outros dois fabricantes. Iannone já deu um retorno inestimável, de acordo com Romano Albesiano, e ajudou a direcionar o desenvolvimento. E Espargaró já aproveitou o status da Aprilia como uma equipe de concessões, recebendo um dia extra de testes em Sepang.

Uma infecção impediu Andrea Iannone de testar a moto no domingo passado, mas o italiano já provou ser rápido em Jerez e Valência. Ele ainda terá alguma adaptação para realizar na RS-GP, e o teste de Sepang será um passo crucial para que isso ocorra.

A maior parte do trabalho de teste da Aprilia recaiu sobre Bradley Smith, o inglês, que deu muitas voltas nos últimos três dias. Isso continuará ao longo dos testes.

KTM – tentando mover montanhas

No início do terceiro ano do seu grande projeto de MotoGP, a KTM enfrenta uma enorme pressão. A RC16 ainda tem muito trabalho a fazer para ser competitiva, apesar de ter conquistado um pódio “de sorte” em Valência devido a chuva. Eles têm que justificar seu enorme investimento e dar passos significativos para frente.

E não foi por falta de tentativas. De fato, pode-se argumentar que o problema está na grande quantidade de testes. Em cada teste, e, em muitas corridas, a KTM traz uma montanha de peças para testar. Isso não foi diferente no teste de shakedown da semana passada, e não será diferente a partir de quarta-feira. Existe a impressão persistente que a questão da KTM é que eles não conseguem enxergar os bosques que levam as árvores.

“Eles pelo menos terão alguma ajuda para separar o joio do trigo”, roubando uma frase do patrocinador de uma fábrica rival. A chegada da equipe satélite Tech3 significará mais dois pilotos no grid para dar feedback e gerar dados, e o plano para que a Tech3 tenha motos praticamente idênticas a dos pilotos de fábrica, torna o trabalho de avaliação de novas peças muito mais fácil.

O trabalho começa em Sepang e caminha em duas direções bem diferentes na equipe de fábrica. Pol Espargaró continuará o trabalho que tem feito na tentativa de melhorar a moto, principalmente tentando ir o mais rápido possível, cedendo à sua inclinação natural. Por outro lado, Johann Zarco tenta superar o choque da mudança da suave Yamaha para agressiva KTM. Com esse objetivo, ele fez um grande número de voltas durante o shakedown, concentrando-se em entender a moto.

Há uma divisão semelhante na garagem da Tech3, com Hafizh Syahrin sentindo a pressão de seu segundo ano na MotoGP,  e tendo que esforçar-se ao máximo durante o teste de shakedown. Do outro lado da garagem, Miguel Oliveira teve uma abordagem muito mais moderada, gastando tempo com pneus usados, fazendo corridas mais longas e focando no ritmo de corrida. Ao final do teste , Oliveira se aproximou rapidamente do tempo de Johann Zarco, e não ficou muito distante dos tempos de Pol Espargaró.

Mika Kallio está presente como o único piloto de testes porque Dani Pedrosa fraturou a clavícula durante o inverno e está ainda na fase de convalescência. Kallio terá que suportar o peso do trabalho de testes da KTM, deixando os pilotos concentrados em se preparar para a temporada. Todos eles ainda terão muito trabalho a fazer antes de se tornarem verdadeiramente competitivos.