Por que Austin é difícil para a maioria dos pilotos de MotoGP?

Depois de uma demonstração do total domínio de Marc Márquez na Argentina, o MotoGP segue a 7000km para o norte, até Austin onde, se a história prevalecer, teremos um novo show do Espanhol. Marc Márquez nunca foi derrotado em Austin e, de fato, não foi derrotado em solo norte-americano desde que subiu para a Moto2 em 2011. Assim, parece insensato apostar contra ele no Circuito das Américas.

O circuito Termas De Rio Hondo e o Circuito das Américas possuem características bem diferentes. O Termas flui, com apenas alguns pontos onde os freios são desafiados, e é uma pista onde a velocidade de curva e a capacidade de deslizar com a moto de traseira é primordial. O COTA é mais uma coleção de curvas do que uma fluida pista de corrida. Três curvas apertadas onde os freios são levados ao limite – a curva 12 é a mais difícil, com frenagem a quase 340 km / h para pouco menos de 65 km / h – uma seção estendida estonteante da curva 2 a curva 9, uma seção interna fechada e uma direita grande de varredura arrebatadora.

Se houver um trecho onde o tipo de pista permitir fluir, é no topo da colina. O primeiro canto é um dos mais difíceis do calendário. Os pilotos aceleram com força, depois apertam os freios comprimindo a suspensão com tal força, mais do que qualquer outro ponto do MotoGP. No topo da colina, eles soltam os freios e tentam virar, administrando a suspensão de rebote em um canto que sobe, se ergue e depois cai para baixo em direção à curva 2.

A curva 2 é provavelmente a melhor curva do circuito, uma direita rápida que favorece a precisão pontual, corajosa e exigente para entrar à direita. O problema é que a curva 2 está no fundo de uma colina íngreme, por isso é extremamente difícil avaliar a velocidade, a aceleração e os pontos de travagem. Se acertar, o piloto ganha uma vantagem que pode levar até o ponto de frenagem na curva 11. Se entrar errado, aí estará correndo por toda parte, lutando para compensar o seu erro que é amplificado até o final da linha reta.

O trajeto da curva 3 a 10 tornam a pista muito exigente fisicamente. Na melhor parte dos 45 segundos, os pilotos lutam com a moto de um lado para outro em alta velocidade, tentando acertar exatamente o ponto certo na pista, sabendo que qualquer erro que eles cometerem a conta sairá cara. Qualquer fraqueza, qualquer falta aparece imediatamente. Se alguma parte do seu corpo está doendo antes do fim de semana, irá virar uma agonia depois de algumas voltas no COTA.

Somando-se à dificuldade do circuito está o fato de a pista ter sofrido algum nível de subsidência. O terreno em que a pista foi construída não é completamente estável, o que significa que a pista está “flácida” em vários pontos, criando uma superfície muito instável nesses locais. Isso causou uma série de reclamações nos últimos anos, com os pilotos exigindo ação nas reuniões da Comissão de Segurança na pista.

No ano passado, o circuito tentou resolver o problema raspando os picos dos solavancos, uma abordagem que eles fizeram novamente este ano. Isso não foi considerado um sucesso pelos pilotos. Jack Miller falou pela maioria deles no ano passado. “A moagem de diamantes, eu não sei se pode funcionar ou não, mas para esta pista e esta situação, não funcionou”, disse ele após a FP2. “Falando por mim, acho que ela piorou em muitos lugares, especialmente nas retas. Você sai da linha e encontra os cantos bem ruins,e devido aos solavancos – o controle de tração e do wheelie basicamente lutam o tempo todo.

Não ajudou muito, de acordo com Valentino Rossi. “A curva 2 é muito ruim. A curva 10 provoca grandes solavancos, e talvez o maior deles ocorre na curva 18, antes das duas últimas curvas à esquerda, você toca a carenagem no chão, então é como no motocross. É uma pena, porque pessoalmente eu gosto muito dessa pista muito, ela é muito boa, mas as imperfeições começam a ser um problema”.

Desafiando Marc Márquez

Alguém pode desafiar Marc Márquez no Circuito das Américas? O piloto da Repsol Honda está invicto na pista de Austin, vencendo todas as corridas de MotoGP desde a primeira vez em 2013. E não é só em Austin: Márquez venceu todas as corridas em que já competiu em solo norte-americano desde a Moto2, em 2011. A última vez que Marc Márquez não conseguiu vencer uma corrida nos EUA foi em 2010, quando sofreu uma queda enquanto lutava pela liderança da corrida de 125cc. Após a queda, voltou a montar e ainda lutou para terminar em décimo.

Por que o Márquez é tão bom no COTA? Há um monte de explicações possíveis. Em primeiro lugar, a pista de Austin é anti-horária, o que significa que a maioria das curvas é à esquerda, e Márquez é o melhor do mundo quando as curvas são à esquerda. Em seguida, a pista tem um número de curvas onde a frenagem forte e a entrada rápida na curva permite ganhar tempo, e Márquez é muito bom em fazer isso também. E então a pista também tem aquela seção de curvas da 2 até a 10, e Márquez é extremamente sublime em empurrar a ágil Honda através dessas mudanças rápidas de direção.

Essa seção fluente pode ser o teste definitivo para Marc Márquez em 2019. O espanhol não mostrou sinais de hesitação ao voltar da cirurgia no ombro até agora nesta temporada. Mas essa parte da curva 2 até a 10 é o par de quilômetros mais fisicamente exigente do calendário. Se Márquez estiver escondendo algum problema no seu ombro em recuperação, o COTA definitivamente irá desmascará-lo. Pode ser que o espanhol tenha uma grande vantagem na primeira metade da corrida. Mas a segunda metade da corrida revelará onde Marc Márquez realmente está.

Essa seção punitiva também irá mostrar a condição física de Jorge Lorenzo. O espanhol vem cuidando da fratura na costela, o que ajudou a retardá-lo na Argentina (além do seu quinhão de má sorte). Sua estreia na equipe da Repsol Honda tem estado longe de ser estelar, então uma pista onde a Honda brilhe deve lhe dar uma melhor chance de resultado. Mas a performance de Lorenzo em Austin não foi boa nos últimos anos, incluindo duas corridas difíceis na Ducati. A Honda deve se adequar melhor ao circuito do que a Desmosedici. Mas se Lorenzo não estiver em 100%, não espere bons resultados.

A Ducati está de volta?

A corrida norte-americana de MotoGP será um teste crucial para a campanha de Andrea Dovizioso. A vitória na primeira corrida no Catar permitiu que começasse o campeonato com o pé direito, e um pódio na Argentina – tradicionalmente uma pista que ele tem lutado – coloca-o na posição mais forte do que ele tem estado no passado. Nos últimos dois anos, Dovizioso não conseguiu terminar melhor do que o quinto lugar, mas o piloto de fábrica da Ducati precisa estar no pódio no Texas, se quiser levar algum dinamismo com ele de volta à Europa.

O pódio é um objetivo realista? A Ducati Desmosedici GP19 é uma moto melhor e mais ágil do que a Ducati dos dois últimos anos. Isso será o suficiente? Só iremos descobrir no domingo.

E quanto a Jack Miller? O piloto da Pramac Ducati – apoiado pela Lamborghini no Texas, um substituto temporário da falecida Alma, cujo chefe foi preso por acusações de fraude fiscal – teve uma mistura de fortunas no Circuito das Américas. O australiano apareceu e dominou sua primeira corrida aqui em Austin, liderando todas as voltas. Ele lutou um pouco mais no MotoGP, apesar de o seu ritmo no ano passado ter sido excelente, a partir do décimo oitavo lugar do grid para o nono. Miller vem de uma boa corrida na Argentina, e se ele puder se classificar bem, deverá ser capaz de se inserir na batalha pelo segundo lugar.

Também haverá muito foco em Miguel Oliveira. O piloto português da Tech3 teve duas excelentes primeiras corridas na KTM. Na Argentina, ele terminou logo atrás de Pol Espargaró da moto de fábrica, e bem à frente de Johann Zarco, que continua lutando com a RC16. Ainda é cedo, mas Oliveira pode se tornar o piloto mais promissor da safra deste ano.