Segredos da Ducati e a criatividade de Gigi Dall’Igna.

Caixa da salada da Ducati
Caixa da salada da Ducati

As duas últimas temporadas foram muito favoráveis para a Ducati e Honda. Das últimas 36 corridas, esses dois fabricantes só não venceram em cinco delas, e a batalha pelo título na MotoGP fará, provavelmente, com que o duelo continue em 2019.

No ano passado, a Desmosedici e a RC213V foram parelhas mais do que nunca, então, em que os engenheiros em Bolonha, na Itália, estão trabalhando para melhorar a performance da moto em 2019? Abaixo, reportamos as impressões de Andrea Dovizioso e do diretor da Ducati Corse, Gigi Dall’Igna.

DUCATI: Trabalhando nos detalhes

A Ducati entra em 2019, esperando que possa fazer um trabalho melhor em desafiar a Honda para o título de MotoGP que no ano passado, quando a grande promessa de 2017 não foi cumprida. Em teoria, desafiar a Honda será mais difícil do que nunca em 2019, com Márquez e Jorge Lorenzo na Repsol RC213Vs (dream team), mas a Ducati espera que Dovizioso e o novo companheiro de equipe Danilo Petrucci façam uma equipe mais unida e mais forte que a de 2018.

“A ideia é que Andrea e Danilo trabalhem mais juntos”, diz Dall’Igna.” E quem sabe, Dall’Igna está certo – afinal, ele não é estúpido. Muito dependerá do que acontecerá na garagem da Repsol, e Dovizioso e Petrucci já estão trabalhando juntos, treinando lado a lado neste inverno. Aconteça o que acontecer, a dinâmica contrastante de times será interessante de assistir.

Dovizioso não está triste por ter perdido Lorenzo como companheiro de equipe – não era segredo a sua incompatibilidade com o seu par. “Foi muito positivo estudar os dados do Jorge, porque há sempre algo especial nas coisas que ele faz com a moto”, diz o italiano. “De certa maneira, vou sentir falta dele porque não terei os seus dados. De outras coisas, não!”

O principal foco técnico de Dall’Igna é o mesmo da temporada passada e da temporada anterior: “o meio da curva”. “Novamente, queremos reduzir a diferença que temos em relação aos outros no meio da curva”, diz o chefe da Ducati. “A diferença não é grande, mas eles têm uma vantagem nesta parte do traçado. Temos algumas ideias … rigidez do chassi, centro de massa e assim por diante.”

Dovizioso testou o GP19 e o GP18 nos testes da pós-temporada em Valência e Jerez. Em Valência, com a GP19 sentiu-se melhor a meio da curva; já em Jerez ele não tinha tanta certeza. Isso não é surpresa, porque a Ducati não quer perder suas vantagens em frenagem e aceleração, então as diferenças entre as duas motos são mínimas.

“O principal problema é reduzir nosso problema no meio da curva sem criar problemas nas áreas em que somos realmente fortes”, acrescenta Dall’Igna. “Quando você está em um bom nível, você tem que ter certeza de que está indo na direção certa, porque quando alguma coisa muda é muito fácil perder o seu caminho.”

Dovizioso venceu seis corridas em 2017 e apenas quatro em 2018, devido a uma pequena diferença de outro tipo: a Michelin veio “mais suave” com os pneus de corrida e isso o surpreendeu. “Fizemos muitas corridas para encontrar uma boa base porque a Michelin mudou um pouco o pneu traseiro para 2018, o suficiente para criar a diferença”, afirma o antigo campeão mundial de 125cc.

“Além disso, em algumas corridas nós usamos a asas aerodinâmicas, e em outras não, o que não é bom porque tínhamos que continuar mudando as configurações e meu estilo de pilotagem. Depois de Barcelona, em junho, decidimos manter as asas e trabalhar no acerto da configuração (setup), além de trabalhar também na pilotagem.

“Quando começamos a ganhar de novo [em Brno, em agosto] todos pensaram que tínhamos mudado algo grande, mas quando você já está em um bom nível, é impossível mudar algo grande.”

“Nossos melhores resultados vieram da análise e do trabalho em todos os detalhes para fazer pequenas alterações em todas as partes. Também o jeito que eu andava, principalmente meu traçado e a forma como eu abro o acelerador. Mas é muito difícil; muito, muito difícil.”

Superar Márquez e Lorenzo – puros talentos – certamente não será fácil, mas Dovizioso e Dall’Igna têm uma maneira especial de trabalhar que pode dar uma vantagem a eles. E o fato de a Desmosedici rodar no meio da curva mais devagar também pode ser positivo, porque a moto usa menos a borda dos pneus. E a vida dos pneus é tudo. Mas claro que não é tão simples assim…

“Não se trata de fazer um setup que não exija muito do pneu traseiro porque não existe uma configuração assim”, acrescenta Dovizioso. “É sobre fazer uma configuração que me torne rápido e que eu seja capaz de não gastar demais o pneu.” Mais uma vez, tudo é sobre pilotos e engenheiros que estão trabalhando mais próximos do que já trabalharam antes, para tirar o melhor proveito da moto e pneus.

Mas Dall’Igna não trabalha só nos detalhes, sua criatividade vai um pouco além, o que explica a “caixa de saladas (scatola di insalata)” que o piloto Dovizioso, Petrucci e Pramac GP19 Jack Miller testaram em Jerez no mês passado. Este dispositivo abaixa a parte traseira durante a frenagem aumentando o grip do pneu traseiro, o que pode dar à Ducati uma grande vantagem em 2019.

“Os pilotos já excederam 100 por cento do grip na frenagem dianteira – travando o pneu dianteiro em muitas das curvas – por isso, se Dovizioso puder utilizar o freio e o pneu traseiro para aumentar o poder de frenagem, deverá ser capaz de ultrapassar qualquer um.”

Se o dispositivo “caixa de saladas” da Ducati funcionar, tenha certeza que a Honda, Yamaha e todos os demais irão criar os seus próprios muito em breve.